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(Texto Áureo) “A graça, a misericórdia, a paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai, sejam convosco na verdade e amor. ” (2 João 3)
“A graça, a misericórdia, a paz, ” O apóstolo João, à semelhança do
que Paulo fez em suas cartas a Timóteo, menciona em sua saudação não apenas graça
e paz, mas graça, misericórdia e paz. A diferença é que a saudação aqui não é
oração nem voto, mas uma confiante afirmação. A graça e a misericórdia são a
raiz, e a paz é o fruto. Quando experimentamos a graça e a misericórdia, recebemos
a paz. Concordo com John Stott quando ele diz que graça e misericórdia são
expressões do amor de Deus, graça para com os culpados e destituídos de
méritos, misericórdia para com os necessitados e desamparados. Paz é aquele
restabelecimento da harmonia com Deus, com os outros e com nós mesmos a que
chamamos salvação. Juntando os termos, paz indica o caráter da salvação,
misericórdia a nossa necessidade dela, e graça a livre provisão que dela Deus
fez em Cristo. Nessa mesma linha de pensamento, Simon Kistemaker diz que a
graça remove a culpa, a misericórdia remove a miséria, a paz expressa a
continuidade da graça e da misericórdia.
“...da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai, ”
O apóstolo João destaca já na introdução desta pequena epístola a verdade
suprema da divindade de Cristo. A saudação à igreja é dada em nome de Deus Pai
e de Jesus Cristo, o Filho do Pai. Jesus Cristo é eternamente gerado do Pai.
Ele é Deus de Deus, luz de luz, coigual, coeterno e consubstanciai com o Pai.
Desta forma, quem nega o Filho também não tem o Pai (l Jo 2.23). A fé cristã
mantém-se em pé ou cai dependendo da maneira como ela vê a doutrina da
divindade de Cristo. Se Jesus Cristo é somente um homem, ele não pode salvar-nos.
Se ele não encarnou, também não pode se identificar conosco.
‘...sejam convosco na verdade e amor. ” O apóstolo João usou a
palavra verdade quatro vezes em sua saudação (v. 1-3). Esta é a palavra que
rege não só esta parte da carta, mas toda a missiva. A igreja estava sendo bombardeada
pelos falsos mestres. Eles saíram de dentro da igreja (l Jo 2.19), abandonaram
a sã doutrina e se converteram em agentes do anticristo. Estes falsos mestres
estavam numa intensa cruzada itinerante, percorriam as igrejas, disseminavam
suas heresias, negavam a divindade e a humanidade de Cristo. Quando João
destaca a necessidade de conhecer a verdade, precisamos perguntar: o que é a
verdade para o apóstolo? Ela representa a realidade em oposição à mera
aparência. Fritz Rienecker diz que a palavra grega aletheia, “verdade”, aqui se
refere à realidade divina, e significa aquilo que é real em última análise, a
saber, o próprio Deus. Jesus é a verdade (Jo 14.6). A Palavra de Deus é a
verdade (Jo 17.17). O Espírito que habita em nós é o Espírito da verdade e
também nos capacita a conhecer a verdade (Jo 14.16,17; 16.13). A comunidade
cristã deve ser caracterizada não só pela verdade, mas também pelo amor.
Concordo com John Stott quando diz que devemos evitar a perigosa tendência para
o extremismo, dedicando-nos a uma dessas virtudes à expensa da outra. O nosso
amor amolece se não for fortalecido pela verdade, e a nossa verdade endurece se
não for suavizada pelo amor. Precisamos amar uns aos outros na verdade, e falar
a verdade uns com os outros em amor.
DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
16/03/2022
Fontes:
BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a
Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
LOPES, Hernandes Dias. João: como ter garantia da salvação.
São Paulo: Hagnos 2010. (Comentários expositivos Hagnos)
STOTT, John. I, II, III João: Introdução e comentário. São
Paulo: Edições Vida Nova, 1982.
KISTEMAKER, Simon. Tiago e epístolas de João. Cultura
Cristã, 2005.
WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Geográfica,
Vol. 6.
RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo
Testamento grego. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985:

(Texto Áureo) “E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. ” (Atos 2.4)
“E todos foram cheios do Espírito Santo...” Quem são esses todos? Quase 120 pessoas (Atos
1:15). Esses quase 120 permaneceram no mesmo lugar, em Jerusalém (Atos 2:1),
obedecendo a ordem de Jesus para aguardarem a Promessa do Pai de Serem
batizados com o Espírito Santo (Atos 1:4). Essa promessa do Pai diz respeito a
promessa que Deus o fez a Abraão de todas as nações serem benditas nele: “Para
que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela
fé nós recebamos a promessa do Espírito “ (Gálatas 3:14). O fato de todos terem
recebidos a promessa demonstra o que Pedro afirma na casa de Cornélio: “Reconheço por verdade que Deus não faz
acepção de pessoas; Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o
teme e faz o que é justo “ (Atos 10:34,35). Afinal o próprio Jesus durante o
último dia da festa dos tabernáculos: Quem crê em mim, como diz a Escritura,
rios de água viva correrão do seu ventre. E isto disse ele do Espírito que
haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora
dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado. ” (João 7:38,39). Importante
ressaltar a diferença do termo “ser cheio do Espírito Santo” Na teologia de
Lucas e do Apóstolo Paulo, segundo o contexto de Lucas ser cheio do Espírito
Santo sempre está associado ao dom de línguas, enquanto para Paulo uma vida
cheia do Espírito refere-se a evidenciar o fruto do espírito: “E não vos
embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito (Efésios
5:18).
“...e começaram a falar em outras línguas, ”. Notemos alguns fatos
importantes sobre o falar em línguas. O que produz esta manifestação? O impacto
do Espírito de Deus sobre a alma humana. É tão direto e com tanto poder, que a
pessoa fica extasiada, falando de modo sobrenatural. Isto pelo fato de a mente
ficar totalmente controlada pelo Espírito. Para os discípulos, era evidência de
estarem controlados pelo poder do Espírito prometido por Cristo. Quando a
pessoa fala uma língua que nunca aprendeu, pode ter a certeza de que algum
poder sobrenatural assumiu o controle sobre ela. Alguns argumentam que a manifestação
do falar em línguas limitou-se à época dos apóstolos. Aconteceu para ajudá-los
a estabelecer o Cristianismo, uma novidade naquela época. Não existe, no entanto,
limites à continuidade dessa manifestação no Novo Testamento. Mesmo no quarto
século depois de Cristo, Agostinho, o notável teólogo do Cristianismo,
escreveu: “Ainda fazemos como fizeram os apóstolos, quando impuseram as mãos
sobre os samaritanos, invocando sobre eles o Espírito mediante a imposição das
mãos. Espera-se por parte dos convertidos que falem em novas línguas. ” Ireneu
(115-202 d.C.), notável líder da Igreja, era discípulo de Policarpo, que por
sua vez foi discípulo do apóstolo João. Ireneu escreveu: “Temos em nossas
igrejas muitos irmãos que possuem dons espirituais e que. por meio do Espírito,
falam toda sorte de línguas” . A Enciclopédia Britânica declara que a
glossolalia (o falar em línguas) “ocorreu em reavivamentos cristãos durante
todas as eras; por exemplo, entre os frades mendicantes do século XIII, entre os
jansenistas e os primeiros quaquers, entre os convertidos de Wesley e Whitefield,
entre os protestantes perseguidos de Cevennes, e entre os irvingitas”. Podemos
multiplicar as referências, demonstrando que o falar em línguas, por meios
sobrenaturais, tem ocorrido em toda a história da Igreja. (Nota: O falar em
línguas nem sempre é em língua conhecida. Ver 1 Coríntios 14.2.)
“...conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. ” Cremos
e ensinamos que o Espírito Santo é uma pessoa. Sua personalidade está presente
em toda a Bíblia de maneira abundante e inconfundível e tem sido crença da
Igreja desde o princípio. A Bíblia revela todos os elementos constitutivos da
personalidade do Espírito Santo, como intelecto, emoção e vontade, em 1
Coríntios 12:11 está escrito: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas
coisas, repartindo particularmente a cada um como quer“. Esse versículo nos
revela que o Espírito Santo possui vontade, nos indicando sua personalidade “
como quer “ Essa vontade nunca contradiz as outras pessoas da Trindade, pois
possuem uma mesma natureza e essência. O Espírito Santo relaciona-se com os
crentes de maneira pessoal, pois somente uma pessoa poderia agir como mestre,
consolador, santificador e guia. Cremos e declaramos que o Espírito Santo
ensina, fala, guia em toda a verdade, julga, ama, contende, convida e
intercede. Ele é Deus, Ele é pessoal. Até por isso os cristãos são batizados
também em seu nome: "batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo" (Mateus 28.19).
DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
14/03/2022
Fontes:
BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a
Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
PEARLMAN, Myer. Atos: e a Igreja se Fez Missões. Rio de
Janeiro: CPAD, 1995.
SOARES, Esequias. Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio
de Janeiro: CPAD, 2017.

(Texto Áureo) “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.” (Apocalipse 1.3)
“Bem-aventurado aquele que lê, “ O livro do Apocalipse contém sete
bem-aventuranças. Essa é a primeira destas sete (1.3; 14.13; 16.15; 19.9; 20.6;
22.7,14). A referência ao ler (grego, anaginoskon) significa ler em voz alta.
Isto implica numa leitura feita na igreja de maneira publica. Esse tipo de
leitura foi realizado por Jesus na sinagoga de Satanás: “E, chegando a Nazaré,
onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga,
e levantou-se para ler.” (Lucas 4:16). Durante a reconstrução de Jerusalém
Esdras leu para todo o povo: “ E Esdras abriu o livro perante a vista de todo o
povo; porque estava acima de todo o povo; e, abrindo-o ele, todo o povo se pôs
em pé. E Esdras louvou ao Senhor, o grande Deus; e todo o povo respondeu: Amém,
Amém! levantando as suas mãos; e inclinaram suas cabeças, e adoraram ao Senhor,
com os rostos em terra. “ (Neemias 8:5,6). A Timóteo escreveu o apóstolo Paulo:
Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá. (1 Timóteo 4:13), “ Tem
cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo
isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.” (1 Timóteo 4:16). Não podemos negligenciar a
leitura da palavra de Deus ela tem poder para produzir salvação: Examinais as
Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna “(João 5:39).
“...e os que ouvem as palavras desta profecia, “ Considerando ainda
a situação acima, a maioria das pessoas na reunião pública ouve ao invés de
ler. Alguns até mesmo nos nossos dias por não possuir leitura: “Ou dá-se o
livro ao que não sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele dirá: Não sei ler “(Isaías
29:12). Porém, não podemos deixar de contextualizar a quem João estava
escrevendo. As pessoas dessa época não possuíam a bíblia em sua cabeceira de
cama ou biblioteca, as Bíblias eram manufaturadas e produzidas por rolos o que
tornava muito caro adquirir uma para si. As próprias sinagogas não possuíam todos
os rolos da bíblia, a de Nazaré possuía o rolo do profeta Isaías. Isso tornava
a leitura muito mais importante, pois as pessoas somente tinha acesso as
escritura pelo ouvido: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra
de Deus “ (Romanos 10:17). Por esse motivo Jesus repetia as palavras: “Se alguém
tem ouvidos para ouvir, ouça” (Marcos 7:16); “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça
“ (Mateus 11:15). Esse fato também induz a João a Escrever as mesmas palavras
as sete igrejas da Ásia: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às
igrejas” (Apocalipse 2:11)
“... e guardam as coisas que nela estão escritas; ” As bênçãos não
vêm sobre leitores negligentes ou ouvintes desatentos, mas sobre aqueles que,
amorosamente, obedecem aos preceitos e mandamentos encontrados no livro. Guardar
não é só memorizar que se leu, é muito mais: é obedecer, é praticar: “Todo
aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei
ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha;” (Mateus 7:24). Esse conselho Deus já havia dado a Josué: Tão-somente
esforça-te e tem mui bom ânimo, para teres o cuidado de fazer conforme a toda a
lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita
nem para a esquerda, para que prudentemente te conduzas por onde quer que
andares. Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e
noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está
escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido. (Josué
1:7,8).
“... porque o tempo está próximo.” A iminência da volta de Cristo
torna esses conselhos indispensáveis, Paulo escreveu aos Romanos: “E isto digo,
conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa
salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Romanos
13:11). Se a igreja contemporânea devia ser prudente e obediente quanto mais
nós que vivemos o cumprimento cabal das profecias: “Aprendei, pois, esta
parábola da figueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas,
sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas estas coisas,
sabei que ele está próximo, às portas.” (Mateus 24:32,33). O Sinais da Vinda de
Cristo estão cada vez mais presentes no mundo, assim como prevemos o verão
devemos entender essa realidade. Sendo assim, Leia, ouça e guarde as palavras
de Cristo.
DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
05/03/2022
Fontes:
BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a
Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
HORTON, Stanley M. Apocalipse as coisas que brevemente devem
acontecer. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
SILVA, Severino Pedro. Apocalipse versículo por versículo.
Rio de Janeiro: Cpad.

(Texto Áureo) “Estou aflitíssimo; vivifica-me, ó Senhor, segundo a tua palavra. ” (SaImo 119.107)
O Salmo 119. Esse é um salmo por si mesmo, distinto de todos os
outros; ele supera todos os outros e destaca-se por seu brilho nessa
constelação. A composição dele é singular e muito precisa. Ele é dividido em
vinte e duas partes, de acordo com o número de letras do alfabeto hebraico, e
cada parte consiste de oito versículos, todos os versículos da primeira parte
começam com álefe; todos os versículos do segundo, com bete e assim por diante,
sem nenhuma falha em todo o salmo. Nessa passagem a letra hebraica em questão é “Nun”.
“Estou aflitíssimo; “ De acordo com o último versículo, ele tinha
prestado juramento como soldado do Senhor, e neste versículo seguinte, ele é
chamado para sofrer dificuldades nesta qualidade. O nosso serviço ao Senhor não
nos isenta do juízo, mas na verdade o assegura para nós. O salmista era um
homem consagrado, mas um homem punido, e suas punições não eram leves; pois
parece que, quanto mais ele era obediente, mais era afligido. Evidentemente,
ele sentia a vara ferindo-o profundamente, e isto ele alega, diante do Senhor.
Ele fala, não como uma queixa ou murmuração, mas como um apelo; sim, devido à
grande aflição em que se encontra, ele apela por uma vivificação. “
“...vivifica-me, ó Senhor, “ Como Deus nos vivifica? Fazendo
reviver as nossas graças em meio ao sofrimento, como a nossa esperança,
paciência e fé. Desta maneira, Ele nos injeta vida novamente, para que possamos
prosseguir alegremente em nosso serviço, pela infusão de novas consolações. Ele
vivifica o coração dos seus contritos, como diz o profeta (Is 57.15). Isto é
muito necessário, pois o salmista diz, em outra passagem, “vivifica-nos, e invocaremos
o teu nome” (SI 80.18, ARA). O desconforto e o desencorajamento enfraquecem as
nossas mãos, e a invocação a Deus. A menos que o Senhor nos vivifique outra
vez, não teremos vida na oração. De duas maneiras, em particular, Deus nos
vivifica na aflição: vivificando a nossa percepção do seu amor, e vivificando a
nossa esperança de glória.
”...segundo a tua palavra. ” Davi, quando pede a vivificação, é
encorajado a fazê-lo, por causa de uma promessa. A pergunta é, qual será esta
promessa? Alguns pensam que é a promessa geral da lei, “Fazendo-os o homem,
viverá por eles” (Lv 18.5) e que, a partir daí, Davi chegou a esta conclusão
particular, de que Deus vivificaria o seu povo. Mas, na verdade, foi alguma
outra promessa, alguma palavra de Deus que ele havia recebido, que o respaldava
nesta súplica. O Senhor faz muitas promessas a nós, de santificar a nossa
aflição. O fruto de todas é tirar o pecado (Is 27.9); melhorar-nos e aperfeiçoar-nos
(Hb 2.10), moderar a nossa aflição, e tirar o seu vento forte, no tempo do
vento leste (Is 27.8); nos assegurar de que não permitirá que soframos mais do
que nos capacitou a suportar (1 Co 10.13). Ele prometeu que irá atenuar a nossa
aflição, de modo que não seremos tentados acima das nossas forças. Ele prometeu
que irá nos resgatar das nossas aflições, que o cetro da impiedade não
permanecerá sobre a sorte dos justos (SI 125.3), e que Ele estará conosco e não
nos desamparará (Hb 13.5). Agora, o meu argumento é: se o povo de Deus
conseguiu firmar o coração na palavra de Deus, quando tinha apenas indicações
obscuras sobre as quais poderiam trabalhar, a ponto de não saberem exatamente
onde estava a promessa, ah! Como os nossos corações deveriam estar firmes em
Deus, quando temos tantas promessas! Tendo em vista que as Escrituras são
ampliadas para o consolo e a dilatação da nossa fé, certamente deveríamos
dizer, como Paulo, quando recebemos uma palavra: “Creio em Deus” (At 27.25); eu
posso esperar que Deus fará isto por mim, uma vez que a sua palavra assegura
isto em todas as partes.
DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
20/02/2022
Fontes:
BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a
Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
SPURGEON, Charles. Os tesouros de Davi – Volume 3. Rio de
Janeiro: CPAD, 2017.
(Texto Áureo) “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. ” (Deuteronômio 6.4)
Esse versículo é conhecido como o
“Shemá Israel” que se refere as duas primeiras palavras da seção da Torá que
constitui a profissão de fé central do monoteísmo judaico é considerado um
credo em sua forma embrionária na Bíblia. Os judeus os escrevem em seus
filactérios, e se acham não apenas obrigados a recitá-los pelo menos duas vezes
todos os dias, mas muito felizes por serem obrigados a isso, tendo esse
provérbio entre si: Abençoados somos nós, que a cada manhã e a cada entardecer
dizemos: Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Porém mais
abençoados seremos se ponderarmos e aproveitarmos devidamente
Deus é um em essência ou
natureza, subsistindo por Si mesmo; só o SENHOR é Deus: “Eu sou o SENHOR, e não
há outro; fora de mim não há deus...” (Is 45.5). Nosso Senhor Jesus Cristo
ensinou o monoteísmo como parte do primeiro de todos os mandamentos: “... Ouve,
Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Mc 12.29); “... com verdade
disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele” (Mc 12.32); “E a vida
eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro...” (Jo 17.3).
O apóstolo Paulo declara:
“Todavia para nós há um só Deus” (1 Co 8.6); “Ora o medianeiro não é de um só,
mas Deus é um” (Gl 3.20); “Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e
por todos e em todos” (Ef 4.6). “Porque há um só Deus” (1 Tm 2.5). Foi o Senhor
Jesus quem revelou Deus aos seres humanos por meio da Bíblia: Mt 11.27; Jo
1.18).
O Deus que Jesus revelou é o Deus
de Israel e isso ele deixou claro ao pronunciar o primeiro e grande mandamento:
“E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: “Ouve, Israel, o
Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor, teu Deus, de
todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de
todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento” (Mc 12.29, 30). Essa é uma
das várias declarações do Novo Testamento que ensina ser o cristianismo
monoteísta. A declaração aqui é reveladora porque não deixa dúvida de que o Deus
dos cristãos é o mesmo Deus de Israel, pois Jesus citou as palavras diretamente
do Antigo Testamento (Dt 6.4-6).
A Trindade é uma doutrina com
sólidos fundamentos bíblicos e, mesmo sem conhecer essa terminologia, os
cristãos do período apostólico reconheciam essa verdade. Essa doutrina está
implícita no Antigo Testamento, pois há declarações que indicam claramente a
pluralidade na unidade de Deus (Gn 1.26; 3.22; 11.6, 7; Is 6.8). Apesar da
ênfase da doutrina monoteísta como o shemá: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso
Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4) reafirmada pelo Senhor Jesus (Mc 12.29), o
Antigo Testamento mostra que a unidade de Deus não é absoluta. O Novo
Testamento revela que essa pluralidade se restringe ao Pai, ao Filho e ao
Espírito Santo (Mt 28.19; 1 Co 12.4-6; 2 Co 13.13; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2).
Há ainda várias passagens
tripartidas no Novo Testamento que revelam a Trindade (Lc 24.49; Rm 1.1-4;
5.1-5; 14.17, 18; 15.16, 30; 1 Co 6.11; 2 Co 1.20, 21; Gl 3.11-14; Ef 1.17;
2.18-22; 3.3-7, 14-17; 1 Ts 5.18). Além das declarações bíblicas apresentadas
aqui, há outras evidências contundentes que fundamentam essa doutrina. Cada uma
dessas Pessoas é chamada individualmente de Deus e Senhor. O Deus do
cristianismo é um (Gl 3.20), mas as Escrituras ensinam também que o Pai é Deus,
o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. A Bíblia aplica o nome “Deus” ao Pai
sozinho (Fp 2.11), da mesma forma ao Filho (Jo 1.1) e ao Espírito Santo (At
5.3, 4); e, na maioria das vezes, com referência à Trindade (Dt 6.4). Isso
também ocorre com o Tetragrama (as quatro consoantes do nome divino YHWH), que
se aplica ao Pai sozinho (Sl 110.1), ao Filho (Is 40.3; Mt 3.3) e ao Espírito
Santo (Ez 8.1,3). No entanto, aplica-se também à Trindade (Sl 83.18). Salta à vista
de qualquer leitor da Bíblia a divindade plena e absoluta de cada uma dessas Pessoas.
Foi assim que o Espírito revelou a unidade na Trindade. A doutrina da Trindade
não neutraliza, nem contradiz a doutrina da Unicidade e nem a doutrina da
Unicidade anula a Trindade.
DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
14/02/2022
Fontes:
BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a
Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico – Pentateuco. Rio de
Janeiro: CPAD, 2010.
SOARES, Esequias. A razão de nossa fé: assim cremos, assim vivemos.
Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
SOARES, Esequias. Manual de apologética cristã: Defendendo os fundamentos da autêntica fé bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

(Texto Áureo) “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. ” (Hebreus 4.12)
“Porque a palavra de Deus é
viva, e eficaz...” 1) A palavra de Deus é Viva. O Comentário Esperança
descreve que “viva é a Palavra de Deus, porque jorra da fonte de toda a vida,
que jamais seca (Sl 36.10) e é capaz de infundir nova vida nos corações humanos
(Jo 6.63; 1Pe 1.23-25; Is 40.8)”. Donald Guthrie argumenta “que a Palavra é
viva e demonstra que reflete o caráter verdadeiro do próprio Deus, a fonte de
toda a vida”. 2 Em suma, a “Palavra é viva” pois o Deus da Palavra é um “Deus
vivo” (Hb 3.12; 9.14; 10.31; 12.22). 2) A palavra de Deus é Eficaz. A afirmação
de que a Palavra de Deus é “eficaz” ecoa Isaías 55:11, em que o profeta
declarou que a “palavra” de Deus não volta para Ele “vazia”, mas faz o que Ele
deseja que ela faça. Uma vez que nada pode ser ocultado de Deus, é apropriado
que Ele tenha designado o evangelho para atingir cada parte do nosso ser e
expor as nossas deficiências. A Palavra de Deus, pelo seu próprio caráter exige
uma resposta autêntica por parte daqueles que a escutam, ela é cheia de poder
para alcançar resultados. Quando Deus a faz agir pelo seu Espírito, ela
convence poderosamente, conforta poderosamente. Ela é tão forte que derruba as
fortalezas (II Co 10.4-5)
“...e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, ” A
comparação da Palavra de Deus como uma espada é de emprego frequente na Bíblia
Sagrada (Ef 6.17; Ap 1.16; 2.12; 19.13-15). O uso figurado da espada de dois
gumes simboliza que a Palavra de Deus é tão bem afiada que nada existe que ela
não possa transpassar. Simon Kistemaker adverte que “o simbolismo transmite a
mensagem de que o julgamento de Deus é severo, justo e terrível. Deus tem o
poder supremo sobre suas criaturas; aqueles que se recusam a escutar sua
Palavra enfrentam julgamento e morte, enquanto aqueles que obedecem a ela
entram no descanso de Deus e têm vida eterna”. 7 Implica dizer que a raça
humana será julgada pela autoridade da Palavra de Deus. À Igreja em Pérgamo, o
Senhor ordenou o arrependimento sob pena do juízo pela espada da Sua boca (Ap
2.16). Assim sendo, nenhuma resistência humana consegue impedir a ação da
espada do Espírito (Ef 6.17).
“...e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas,
” O termo “penetrar” só ocorre aqui em Hebreus. É uma ideia de Lucas,
equivalente a “atingir o âmago” (Atos 5:33; 7:54). O poder “penetrante” do
evangelho é visto em Atos 2:36–38. Por causa do que seu público “ouviu”,
“compungiu-se” o coração de muitos. A mensagem do evangelho trouxe convicção.
Ela penetra e atinge o âmago de nosso interior, examina os segredos obscuros e
revela o nosso verdadeiro caráter; ainda expõe os desejos de nossa alma e os
conflitos entre o nosso espírito e a carne (Gl 5.17). O “espírito” (pneuma) e a
“alma” (psiche) são distintos ou são sempre meras variações da mesma coisa? Às
vezes é difícil distingui-los: perder a “alma” espiritualmente não é o mesmo
que perder o espírito (Mateus 16:26)? Todavia, dizemos que uma “alma” falece, e
não que um “espírito” falece. Na cruz Jesus entregou Seu “espírito” (pneuma) ao
Pai (Lucas 23:46), e não a Sua “alma”. Primeira Tessalonicenses 5:23 deixa
implícita a natureza tríplice do ser humano. Todavia, as tentativas de se fazer
uma distinção entre alma e espírito geralmente parecem fabricadas. A Palavra de
Deus pode separar a alma do espírito como uma espada pode separar as juntas e
medulas, ou seja, as partes mais secretas e íntimas do corpo. Podemos nos referir
apropriadamente, como faz Hebreus, ao “corpo”, à “alma” e ao “espírito” de uma
pessoa. Independentemente do que esses termos denotam para nós, sabemos que
Deus salvará a pessoa integralmente – dando-lhe um novo corpo espiritual que
será salvo eternamente.
“...e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. ” O
termo grego “kardia”, traduzido como “coração”, é usado figurativamente para se
referir às fontes ocultas da vida pessoal. Em seu significado moral, inclui as
emoções, a razão e a vontade. No livro aos Hebreus, o termo é aplicado tanto no
sentido negativo como positivo. Negativamente, o coração pode ser “endurecido”
(Hb 3.8,15; 4.7); pode “errar” ou “desviar-se” (Hb 3.10); e ser “mau e infiel”
(Hb 3.12). Positivamente, a lei de Deus pode ser “escrita no coração” (Hb 8.10;
10.16); o coração pode ser “purificado da má consciência” (Hb 10.22); e, ainda,
o coração pode ser “fortalecido pela graça” (Hb 13.9). Flanigan elucida que, no
texto em questão, a Palavra de Deus “tem habilidade para julgar todo movimento
e sentimento do coração. Ela pode julgar nossos pensamentos antes deles se
tornarem palavras, e nossas intenções antes delas se tornarem ações”.
DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
08/02/2022
Fontes:
BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a
Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
LAUBACH, Fritz. Carta aos hebreus: comentário esperança. Curitiba:
Editora Esperança, 2000.
GUTHRIE, Donald. Hebreus: introdução e comentário. São
Paulo: Vida Nova, 1999.
KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São
Paulo: Cultura Cristã, 2003
FLANIGAN, J. M. Comentário Ritchie do Novo Testamento:
Hebreus. Ourinhos: Edições Cristãs, 2001.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico – Atos a Apocalipse. Rio
de Janeiro: CPAD, 2010.
ROPER, David. A Verdade para Hoje, 2019. Disponível em: <
http://biblecourses.com/Portuguese/po_lessons/PO_201403_09.pdf >. Acesso em
10 fev.2022.

CONFERÊNCIA ACADÊMICA FAECAD - DOUTRINAS CLÁSSICAS PENTECOSTAIS NO SÉC. XXI
CERTIFICADO DE PARTICIPAÇÃO GRATUITO
Data: 09, 10 e 11 Fevereiro de 2022
Palestrantes: Dr. Esdras Bentho, Pr. Elinaldo Renovato e Pr. Elienai Cabral
Horário: 19h
Local: Facebook e Youtube
Se inscreva pelo link https://tinyurl.com/yc3pcbzn

Essa história é extremamente complicada e não poderá ser narrada com muitos pormenores aqui. E, na verdade, uma história controvertida e discutível. Qualquer tentativa de recontá-la será forçosamente alvo de críticas de pessoas com prometidas com um a versão diferente. Apesar disso, o esboço e os acontecimentos básicos dessa história serão o tópico do restante do presente capítulo.
Os próprios apóstolos usavam a Bíblia hebraica e certamente consideravam-na autorizada. Embora muitos escritos judaicos existissem nos tempos de Jesus e dos apóstolos, o cânon das Escrituras hebraicas era relativamente fixo e claro. O partido dos fariseus dominava as sinagogas judaicas e, depois da destruição do templo em Jerusalém em 70, procurou reformar o judaísmo de modo que pudesse existir por tempo ilimitado na diáspora (no exílio da Palestina) sem um templo. Uma parte desse processo foi a definição formal das Escrituras inspiradas do judaísmo. Embora exista certa divergência no tocante ao Concílio de Jâmnia, onde os rabinos se encontraram em 90, parece que foram dados ali alguns passos importantes em direção ao processo oficial da canonização. A Bíblia hebraica ficou definida com vinte e dois livros inspirados: desde o Pentateuco até aos Profetas Menores. Nas Bíblias cristãs posteriores, alguns livros do cânon judaico foram subdivididos, perfazendo um total de trinta e nove livros individuais. A versão grega das Escrituras hebraicas, que é chamada Septuaginta, ou LXX, continha todos eles, bem com o alguns livros escritos depois de Malaquias, que são principalmente de relevância histórica. Estes incluem os livros dos Macabeus e outros livros chamados (pelos cristãos) de interbíblicos ou apócrifos. A maioria dos primeiros pais da igreja no século II empregava a Septuaginta, assim com o Paulo e outros apóstolos. Mas, para fazer suas citações, quase sempre usavam os vinte e dois livros canônicos e raramente os livros históricos e apócrifos posteriores.
De modo geral, portanto, podem os dizer com segurança que a maioria dos primeiros pais da igreja nos séculos II e III aceitavam a decisão dos líderes judaicos de ampliar o conteúdo das Escrituras inspiradas para além do Pentateuco (Gênesis até Deuteronômio) e restringi-lo aos vinte e dois (ou trinta e nove) livros da Lei e dos Profetas. Esta, portanto, era “a Bíblia” das primeiras igrejas cristãs depois dos apóstolos. Na época de Clemente de Roma e dos demais pais apostólicos, as cartas dos apóstolos e os Evangelhos considerados de autoria dos apóstolos, ou de seus colegas mais íntimos, foram reunidos e chamados “Apóstolos”, justapondo-os com os “Profetas” da Bíblia hebraica. Sendo assim, já antes do ano 200, vários pais e bispos da igreja estavam se referindo a um a coletânea de escritos inspirados e autorizados conhecidos por “os Profetas e os Apóstolos” e tratando essa massa amorfa com o um critério e norma de verdade para a fé e prática cristãs. No entanto, ainda não existia nenhum equivalente cristão da Bíblia hebraica que tivesse o reconhecimento oficial ou fosse unanimemente aceito.
Os estudiosos em geral concordam , mais um a vez, que a igreja deve muita coisa a um herege. Segundo um grande historiador eclesiástico: “A idéia e a realidade de um a Bíblia cristã foram obra de Marcião e a Igreja, que rejeitou a sua obra, longe de estar adiante dele nesse campo, do ponto de vista formal, simplesmente seguiu o seu exemplo”. Marcião foi um mestre cristão de grande influência em Roma em meados do século II. Apesar da longa distância que os separava geograficamente, Marcião e Montano eram contemporâneos e tinham certas características em comum . Embora a teologia de Marcião estivesse mais próxima a algumas formas do gnosticismo, ele, da mesma forma que Montano, considerava que a igreja necessitava urgentemente de um a reforma e pôs mãos à obra para reformá-la, tentando redescobrir e promover o que considerava o ensino verdadeiro e original de Jesus. Para tanto (segundo Marcião acreditava), seria necessário remover do cristianismo todos os vestígios do judaísmo, inclusive a Bíblia hebraica e seu Deus, Iavé. Para ele, o AT não tinha a mínima validade para os cristãos e o Deus descrito nele era um semideus tribal sanguinário que não merecia a adoração ou culto dos cristãos. As semelhanças entre Marcião e o gnosticismo aparecem na sua idéia de que o Deus do AT criou, erradamente, a matéria, e que a matéria é a origem do mal. Para Marcião, o Iavé do AT era mais demoníaco do que divino.
Marcião foi, talvez, o primeiro cristão que tentou definir um cânon cristão das Escrituras inspiradas e quis limitá-lo exclusivamente aos escritos dos apóstolos que considerava livres de qualquer vestígio do judaísmo. A Bíblia de Marcião constituía-se de duas partes: uma versão editada do evangelho segundo Lucas e dez epístolas de Paulo. Até mesmo o “apóstolo” foi editado por Marcião para livrar as dez epístolas de todos dos “elementos judaizantes”.
Marcião e sua versão antijudaica das Escrituras cristãs tiveram rápida aceitação entre alguns cristãos, e igrejas marcionitas foram surgindo de repente em Roma, Cartago, e em outras cidades. Os pais e bispos principais da igreja atacaram com severidade Marcião e seus seguidores. A obra de Tertuliano Contra Marcião é um excelente exemplo da polêmica cristã antimarcionita na época da virada do século (201). Ireneu, também , criticou Marcião e os seus ensinos, em Contra heresias, e outros pais da igreja dos séculos II e III fizeram o mesmo. Alguns cristãos da antiguidade claramente consideravam Marcião como o arqui-herege e principal inimigo do cristianismo ortodoxo e católico. Apesar disso, igrejas marcionitas sobreviveram em cidades de todas as partes do império, até serem fechadas pelos primeiros imperadores cristãos.
Uma das reações ao cânon das Escrituras cristãs truncado por Marcião foi criar o cânon correto e a primeira tentativa semi-oficial aconteceu em Roma. Por volta de 170, a igreja cristã de Roma criou o Cânon muratório para rebater o de Marcião e fornecer aos cristãos um a lista completa de “Profetas e Apóstolos” autorizados. O Cânon muratório alistava os quatro evangelhos, Atos e os demais livros contidos no NT (conforme a definição que existe ainda hoje), à exceção de Hebreus, Tiago e I e II Pedro. Incluía, ainda, A sabedoria de Salomão, mas notavelmente excluía o sempre popular e influente O pastor de Hermas. O Cânon muratório representa um passo crucial no desenvolvimento da vida organizacional oficial da igreja cristã: foi a primeira tentativa de identificar um a lista definitiva de escritos cristãos com o mesmo nível da Bíblia hebraica. Embora essa lista não seja a da versão definitiva, certamente contribuiu para o pensamento cristão ficar tomado pela idéia de um a Bíblia cristã e deixou claro que não excluiria as Escrituras hebraicas, nem estaria aberta para incluir toda e qualquer nova profecia ou escrito supostamente inspirado.
Os critérios exatos usados pelos que com puseram o Cânon muratório não são conhecidos com clareza. Na verdade, sempre houve debates a respeito dos principais critérios nos quais a igreja poderia se basear para reconhecer certos escritos com o autorizados e inspirados. O historiador eclesiástico von Campenhausen está mais perto da verdade ao chamar o critério principal de “princípio profético apostólico”. Essa não é um a regra rígida, mas uma medida flexível mediante a qual os escritos eram julgados pelos cristãos primitivos envolvidos nesse processo. O princípio profético-apostólico significa simplesmente que os livros e as cartas precisavam ser amplamente reconhecidos por todas as igrejas cristãs com o um a reflexão da autoridade apostólica (se não tiverem sido escritos por um apóstolo) e com o um a apresentação de verdades importantes para a salvação e o viver cristão. Isto é, qualquer obra que entrasse no cânon, tinha de ser produto do “cristianismo primitivo” e ser amplamente usada com o guia útil para ensinar c viver o cristianismo.
Os pais da igreja, com o Ireneu, Tertuliano e Orígenes, criaram suas listas de Escrituras cristãs que, de certa forma, variavam um pouco do Cânon muratório e entre si. Ireneu alistou os quatro evangelhos e a maioria das epístolas posteriormente canonizadas, que tratava claramente com o Escrituras inspiradas e autorizadas. Rejeitou os evangelhos dos gnósticos e o cânon truncado de Marcião. Pouco depois de Ireneu, Tertuliano seguiu os mesmos moldes, assim como Orígenes. Tanto Tertuliano como Orígenes consideravam certos escritos cristãos verbalmente inspirados como as Escrituras hebraicas e usavam-nos para dirimir controvérsias doutrinárias. Nos escritos deles, vem os o conceito implícito de um NT ao lado das Escrituras hebraicas — o AT — na forma de tratarem os escritos que consideravam profético-apostólicos e autorizados. Existia, no entanto, um a certa diferença entre eles, pois Tertuliano tratava o cânon de forma categórica, enquanto Orígenes reconhecia um conjunto de escritos cristãos como duvidosos, porém úteis.
De acordo com von Campenhausen: “E inegável que, tanto o Antigo Testamento com o o Novo, já tinham em essência chegado à sua forma e ao seu propósito finais por volta do ano 200”. Essa declaração talvez pareça um pouco otimista diante das discrepâncias entre as listas de Escrituras cristãs fornecidas por Tertuliano e Orígenes, escritas aproximadamente naquela data e pouco depois. Entretanto, não deixa de ser verdade a afirmação de von Campenhausen, mormente em relação aos que relegariam a um a data muito posterior toda a idéia de um NT e Bíblia cristãos. Não se pode ler Ireneu, Tertuliano ou Orígenes sem notar sua devoção e submissão aos escritos que consideravam especialmente inspirados e autorizados para os cristãos. E, apesar de algum as diferenças, as listas apresentavam muitas coincidências.
Os principais debates a respeito de quais escritas deviam ser incluídas no cânon cristão das Escrituras giravam em torno de Hebreus, 1 e 2 Pedro, Judas, 3 João, Apocalipse, Tiago e o Didaquê, O pastor de Hérmas e a Epístola de Barnabé. Alguns pais da igreja primitiva, bem com o algumas congregações, tratavam até mesmo l Clemente com o parte das Escrituras. Paulatinamente, no entanto, foi-se chegando ao consenso de que todos os escritos da primeira lista — de Hebreus a Tiago — deviam ser incluídos por causa do seu amplo uso em todas as igrejas cristãs (embora alguns fossem totalmente desconhecidos em algum as igrejas) e por causa da sua ligação com os apóstolos. Judas foi aceito finalmente, segundo parece, somente por causa da tradição amplamente aceita de que o autor era irmão de Jesus. As obras da segunda lista mencionada (de Didaquê à Epístola de Barnabé) foram rejeitadas, a despeito de algum as igrejas e pais da igreja que as consideravam inspiradas, porque careciam da qualidade profético-apostólica essencial e de ligação com o cristianismo primitivo.
Os passos finais do processo formal de canonização e criação do NT foram dados, posteriormente, no século IV. A primeira lista contendo somente os vinte e sete livros, de Mateus ao Apocalipse, e mais nenhuma foi criada por Atanásio, bispo de Alexandria e principal defensor da ortodoxia, na sua carta pascal às congregações cristãs do Egito em 367. O texto de Atanásio não dá a menor impressão de que apresentava qualquer idéia nova. Pelo contrário, parece querer estabelecer a tradição normalmente aceita. Dois sínodos foram convocados na África do Norte, em Hipona e em Cartago, em 393 c 397 respectivamente. Os dois declararam a lista de Atanásio com o definitiva e autorizada. A partir de então, a questão do NT estava resolvida. Em parte porque, naturalmente, os sínodos recebiam o apoio imperial e porque a igreja do fim do século IV tinha o poder do imperador para reprimir dissensões e impor a conformidade. Não obstante, o NT, conforme foi identificado e oficializado nos sínodos, resistiu às vicissitudes do tempo e é acolhido com júbilo com o definitivo e final por todas as ramificações do cristianismo desde então. A única grande controvérsia gira em torno do AT e de se ele deve incluir os apócrifos e, nesse caso, que autoridade os livros ali incluídos devem ter para os cristãos.
A igreja cristã “organizou-se” por volta do ano 300. Naquela época, já existia um a catedral cristã próxima ao palácio imperial em Nicomédia e a paisagem do império estava marcada por basílicas. Os bispos governavam com autoridade sobre as igrejas, a liturgia cristã padronizava-se, existia um credo para avaliar a ortodoxia e, para todos os fins práticos, a igreja tinha sua Bíblia autorizada. Sínodos de bispos reuniam -se ocasionalmente para dirimir disputas. Um sistema penitencial estava sendo desenvolvido para determinar com o deveria ser avaliado o arrependimento de cristãos desobedientes. A Grande Igreja estava crescendo, altamente estruturada e formalizada. Só lhe faltava poder político para impor sua ortodoxia aos cismáticos que alegavam ser cristãos, mas que não seguiam o cristianismo católico e ortodoxo. Esse poder não demoraria a aparecer, na pessoa do imperador Constantino, o Grande, que se “converteu” ao cristianismo católico em Rom a entre os anos de 311 e 313. Entretanto, a maior ameaça à unidade cristã e talvez ao próprio evangelho viria, não da parte das seitas heréticas e cismáticas, nem dos inimigos fora da Grande Igreja, mas de dentro da própria igreja. O cristianismo suportou muitas tempestades nos dois séculos após a morte do último dos apóstolos, mas ainda estava para enfrentar o maior furacão doutrinário de todos, o Arianismo.
Fonte:
OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã - 2000 anos de tradições e reformas. São Paulo: Editora Vida, 2001.