sábado, 8 de janeiro de 2022

Declaração de Fé Calcedônia (451 d.C.)



Credo de Calcedônia

 (...) Todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [hommoysios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; “em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado”, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [Theotókos];

Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, conseparáveis e indivisíveis;[1] a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência [hypóstasis]; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu.


Henry Bettenson, Documentos da Igreja Cristã (SP: ASTE/Simpósio, 1998)

 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

5 TIPOS DE TEOLOGIAS REFLEXIVAS

CRISTIANISMO REFLEXIVO

Podemos imaginar os vários tipos de investigação teológica como dispostos num amplo leque de reflexões. Por reflexão entendemos o pensamento formalizado — o uso da mente na organização dos pensamentos e crenças, visando ordená-los de forma coerente entre si e tentando identificar e excluir contradições flagrantes, para obter a certeza de que há boas razões para interpretar a fé cristã do modo como fazemos. A reflexão, portanto, envolve certa dose de pensamento crítico, pois questiona as nossas formas de pensamento, a razão por que cremos e o nosso comportamento. Normalmente exige o exercido da lógica (embora rudimentar) e alguma consciência histórica (ciência de fontes históricas e do desenvolvimento das ideias), Item como certa dose de objetividade para com as crenças e práticas que esposamos.

O leitor pode estar pensando: “Por que a reflexão deveria fazer parte do cristianismo? Afinal, não se presume que os cristãos creiam como crianças e simplesmente concordem, mediante a fé cega, com o que lhes proscreve a Palavra de Deus?”. Acima definimos teologia como fé em busca de entendimento. E quando citamos a reflexão referimo-nos ao esforço intelectual, que se inicia com a certeza acerca de Deus e sua Palavra e tenta descobrir o que realmente está subentendido no crer e no viver, A teologia de fato admite a possibilidade de termos crido incorreta ou incompletamente. Nem Deus nem sua Palavra podem estar errados, mas com certeza pode haver equívocos de nossa parte na interpretação e aplicação das Escrituras. A reflexão é imprescindível a qualquer processo de amadurecimento de ideias.

O filósofo ateniense Sócrates defendia este lema: “A vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Com “vida não examinada” ele se referia ao viver sem reflexão — viver momento após momento sem questionar o que cremos ou o modo como nos comportamos. Declaramos que, de certo modo, “a fé não examinada (não refletida) não vale a pena ser vivida”. Em outras palavras, parte do processo de amadurecimento na fé cristã consiste em examinar — de forma crítica — nossa crença e estilo de vida, bem como de outras pessoas. Isso, contudo, não significa pôr de lado os compromissos de fé durante o processo. Não podemos refletir sobre o vácuo! A reflexão pode ser expressa pelo simples gesto de reclinarmos para trás — ou de entrarmos numa biblioteca — a fim de examinar nossos valores e comportamentos secundários à luz de nossas crenças e valores centrais. “Será que são consistentes? Existe uma inteireza — integridade — no que creio e em como vivo minha vida?” Esse é o começo da fé reflexiva. 

As teologias, portanto, estendem-se num amplo leque de reflexão. Numa extremidade está o que chamaremos “teologia popular”, e na outra, o seu oposto: a “teologia acadêmica”. No espaço entre ambas situam-se vários níveis de teologia — algumas menos reflexivas quanto ao enfoque na fé cristã, outras mais. Mais próxima do centro que a teologia popular está a teologia leiga, e a mais central de todas é a teologia ministerial. Movendo-nos mais para a outra extremidade do leque, encontramos a teologia profissional e finalmente — na extremidade oposta à teologia popular — situa-se a teologia acadêmica.

TEOLOGIA POPULAR

Que é teologia popular? Empregamos o termo para descrever a crença não refletida, baseada na fé cega e em alguma espécie de tradição, Não pretendemos com esse rótulo criticar a fé singela dos santos que nunca foram instruídos em teologia formal. 

Conhecemos autênticos servos de Deus que vivem a vida cristã de maneira profunda, mas não têm habilidade para articular suas crenças ou analisá-las de forma crítica. Pelo contrário, empregamos o termo para identificar a teologia que rejeita a reflexão crítica e entusiasticamente abraça a aceitação simplista da tradição informal de crenças e práticas, formada primordialmente por clichês e lendas.

A teologia popular pode ser encontrada em todas as denominações e com grande frequência entre pessoas que se consideram cristãs (ou pelo menos afirmam crer em Deus), mas não são membros de nenhuma denominação ou igreja. De modo geral, a teologia popular rejeita qualquer reflexão na esfera religiosa.A devoção espiritual profunda e a reflexão intelectual são consideradas antitéticas na teologia popular.

A maioria dos adeptos da teologia popular jamais a consideraria “teologia” Contudo, em nossa acepção ampla do termo, assim a definimos, porque contém respostas às perguntas fundamentais sobre a vida e busca elaborar um arcabouço para a crença e a vivência da fé cristã. A teologia popular é muitas vezes intensamente experimental e pragmática — ou seja —, os critérios para a verdadeira crença são os sentimentos e os resultados. Ela se materializa e se perpetua por meio de “frases de para-choque” cristãs: refrãos, clichês e lendas.

Na década de 1950, uma canção popular cristã transmitia a seguinte mensagem: “Se estou sonhando, deixe-me continuar sonhando!” Um cético dissera ao autor, cristão devoto, que sua fé não passava de um castelo no ar. A resposta veio no título da canção. 

Na década de 1960, em que supostos teólogos cristãos proclamavam a “morte de Deus” apareceu um adesivo popular que declarava: “Meu Deus não está morto. Lamento pelo seu!”.

Nas décadas de 1970 e 1980, milhares de jovens cristãos usavam a frase “Nosso Deus é um Deus poderoso!” para sintetizar sua crença, e muitos cristãos começaram a assistir aos televangelistas em vez de comparecer à igreja. Os televangelistas e seus convidados relatavam histórias sensacionalistas com pouca substância e nenhuma comprovação. Essas narrativas populares, no entanto, fizeram sucesso e alastraram-se como incêndio pelas congregações dispersas. Uma dessas “evangelendas” anunciava a descoberta do inferno por cientistas russos que tentavam cavar um buraco até o centro da terra. Outras “evangelendas” davam “sustentação” à crença cristã, e nelas muitos cristãos fixavam sua fé: Triângulo das Bermudas, anjos que pedem carona ou a descoberta do dia perdido de Josué graças à ajuda de sofisticados equipamentos astronômicos.

A característica principal da teologia popular é o apego a tradições orais sem substância, bem como a recusa em medi-las por qualquer parâmetro (bases para crer). Simplesmente elas são cridas porque soam espirituais ou porque são comunicadas por alguém considerado espiritual ou que transmite uma sensação espiritual. Qualquer tentativa de examiná-las objetivamente é evitada e muitas vezes qualificada como “carnal”.

Um exemplo contemporâneo de teologia popular é a onda de interesse por anjos. Entre em qualquer livraria — secular ou religiosa — e encontrará dezenas de livros sobre anjos e outros seres sobrenaturais. Quase sempre a base dos registros é pura teologia  popular — histórias inverificáveis de encontros com anjos que levam a conclusões sobre os atributos desses seres. Alguns desses livros até mesmo encorajam o leitor a estabelecer contato com “seu anjo interior”.

A teologia popular fica evidente quando alguém adota o que é informado e defendido nesses livros (e também nos programas de televisão, sermões, fitas de áudio e de vídeo, e assim por diante) sem razão melhor que a de soar espiritual ou trazer algum conforto. E resistem a qualquer comentário corretivo ou cauteloso com algo do tipo: “Não me confunda. Já tomei minha decisão”. A teologia popular, portanto, é a crença não refletida que se deleita com sentimentos subjetivos produzidos por clichês ou lendas e recusa submeter-se a exame. Em termos gerais, sente-se bastante confortável com sua inconsistência interior e com a crença não questionada em histórias sensacionalistas e em frases de efeito — os principais meios pelos quais é comunicada. 

A teologia popular, por seu conformismo, é imprópria para a maioria dos cristãos. Ela estimula a ingenuidade, a espiritualidade forçada e respostas simplistas aos  difíceis dilemas com que deparam os seguidores de Jesus Cristo neste mundo predominantemente secular e pagão. Retarda o crescimento e embota a influência do cristianismo no mundo. Além disso, muitas vezes é difícil distinguir a teologia popular cristã das respostas enlatadas e sorrisos postiços exibidos pelos membros de seitas que mascateiam de porta em porta suas “novas revelações”.

Teria a teologia popular algum valor para a fé reflexiva? Poderia ela ser uma fonte para os teólogos leigos e profissionais? Embora a teologia popular não seja adequada como patamar para cristãos que pensam e procuram articular suas crenças, reconhecemos que teólogos leigos, ministeriais e profissionais podem aprender sobre os anseios do coração das pessoas. As lendas e clichês que vicejam a teologia popular revelam as necessidades, indagações e anseios espirituais das massas. Não devemos ignorá-los, pelo contrário, é nosso dever recorrer a eles a fim identificar os recursos de que dispõe a fé reflexiva para atendê-los e dar-lhes respostas.

TEOLOGIA LEIGA

A teologia leiga representa, quanto ao nível de reflexão, um passo acima e além da teologia popular. Na realidade, se a reflexão caracteriza a diferença entre a teologia popular e a teologia leiga, a última pode ser descrita como o avanço radical em relação à primeira! A teologia leiga surge quando o cristão comum começa a questionar os clichês e lendas simplistas da teologia popular. Ela emerge quando o cristão escava profundamente os recursos de sua fé, reunindo mente e coração na sincera tentativa de examinar e entender essa fé. A teologia leiga pode carecer das sofisticadas ferramentas dos idiomas bíblicos e da consciência lógica e histórica, porém busca, com os recursos de que dispõe, integrar as crenças cristãs num todo bem fundamentado e coerente, questionando tradições infundadas e eliminando flagrantes contradições. 

Um exemplo de teologia leiga ocorreu quando um cristão comum começou a refletir sobre as palavras cantadas no culto. Ele notou que o líder do louvor escolhia hinos que pareciam discrepantes entre si e contradiziam os sermões. No domingo de missões, o pregador convidado proferiu um sermão de avivamento sobre o iminente retomo de Jesus Cristo e a necessidade de evangelizar o mundo a fim de prepará-lo para sua chegada. O quadro retratado pelo evangelista era sombrio — o mundo em crescente escuridão, pecado e erro. Então, Cristo chegaria para derrotar os inimigos do Reino e dar início ao glorioso reinado de mil anos com seus santos na terra!

O leigo reconheceu a visão defendida de forma geral por sua denominação e até sabia o termo teológico para ela — pré-milenarismo. Imediatamente após o sermão, o líder do culto convidou a congregação a ficar de pé e cantar o hino final: We’ve a story to tell to the nations [Temos uma história para contar às nações]. Pela primeira vez, aquele cristão refletiu sobre as palavras do hino à luz do sermão e descobriu uma grave inconsistência. A canção sugere que o Reino milenar de Cristo chegará gradualmente pelo evangelismo e pela ação social: “... e a escuridão se tornará alvorada, e a alvorada, meio-dia brilhante, e o grande Reino de Cristo virá sobre a terra, Reino de amor e luz”. “Isso é pós-milenarismo”. concluiu. Após o culto, aproximou-se de um membro da equipe pastoral e educadamente perguntou se ele havia notado a discrepância. Foi repelido com uma resposta que classificava aquela reflexão como nociva ao “espírito de adoração” — teologia popular! 

A igreja precisa de mais teólogos leigos como o homem dessa história! Cristãos que pensam podem ajudar a igreja a “rever suas ações” e a apresentar a si mesma e ao mundo uma face consistente, de uma organização que sabe o que crê e por que razão crê no que proclama. Lamentavelmente, porém, a própria teologia leiga, apesar de singela e respeitosa, é tratada pelos que preferem a teologia popular como evidência de diminuição da espiritualidade. Essa reação desencoraja e intimida outros leigos que desejam uma fé mais madura e racional e dá a impressão de que os cristãos em geral são antiintelectuais e preferem confortáveis mitos à fé racional.

TEOLOGIA MINISTERIAL

A teologia ministerial é a fé refletida por ministros treinados e educadores nas igrejas cristãs. Eleva-se acima da teologia leiga quanto ao nível de reflexão exigido. A teologia ministerial não é exclusiva de obreiros ordenados ou profissionais eclesiásticos. A igreja tem grande necessidade de leigos nas áreas de ensino, pregação, exortação e evangelismo. Dando-se conta dessa carência, muitas igrejas criam centros de treinamento informais para encaminhá-los à teologia semiprofissional. Além disso, muitos deles frequentam escolas bíblicas e seminários noturnos ou fazem cursos por correspondência para enriquecer sua capacidade de interpretar a Bíblia e aplicá-la à vida cotidiana neste mundo cada vez mais pós-cristão.

A teologia ministerial, em sua melhor forma, utiliza ferramentas normalmente disponíveis apenas no âmbito do estudo formal — conhecimento básico de idiomas bíblicos ou pelo menos habilidade no uso de concordâncias, comentários e outros auxílios impressos, além de perspectiva histórica acerca do desenvolvimento da teologia no transcurso das eras e pensamento sistemático perspicaz apto a reconhecer inconsistências entre crenças e a estabelecer a coerência entre um item da fé e outro. A teologia ministerial, portanto, encontra-se em algum lugar entre a reflexão incipiente do leigo em fase de amadurecimento e o raciocínio sofisticado do teólogo profissional. 

TEOLOGIA PROFISSIONAL

A teologia profissional é um passo adiante no leque da reflexão e do preparo teológico. O teólogo profissional é alguém cuja vocação requer habilidade com as ferramentas mencionadas no parágrafo anterior e consiste em instruir leigos e obreiros a utilizá-las. É natural que os teólogos profissionais visem elevar seus alunos a um patamar acima da teologia popular, formando neles a consciência crítica que questione pressupostos e crenças infundados. Para fazê-lo, precisam ter consciência crítica. Isso, às vezes, parece a outros ceticismo e hostilidade à devoção e à espiritualidade. E os teólogos profissionais debatem-se diante dessa visão — muitas vezes em grande agonia. 

Nós (Stanley e Roger) entramos na sala de professores de uma proeminente faculdade cristã de artes para travar um diálogo sobre a integração entre fé e aprendizado com professores de diferentes disciplinas. Bastou que sentássemos e nos soltássemos na conversa para que um membro do corpo docente repelisse uma parábola que ouvira sobre teólogos. De acordo com a história, um pobre cristão surpreendido pela noite vagava em círculos numa floresta escura, tentando descobrir o caminho de saída guiado por uma pequena vela. De repente apareceu um teólogo e apagou-a. Evidentemente, a vela da parábola representa a teologia popular, e o que assopra a vela, o teólogo profissional! De nossa parte, mudaríamos a parábola. Um homem vagava pela floresta, e escurecia. Infelizmente, o pobre homem simplesmente ficava andando em círculos porque usava apenas uma lanterna fraca para enxergar o caminho. Então, apareceu um teólogo e forneceu novas baterias para a lanterna, além de lhe mostrar a direção que o tiraria da floresta. Para ajudar o ser humano que andava em círculos, o teólogo teve de fazer uma análise das baterias que fraquejavam!

Os teólogos profissionais às vezes têm a sensação de que alguns cristãos investiram tanto na teologia popular que preferem que ninguém lhes mostre quão inútil ela é para responder aos difíceis questionamentos levantados contra a fé cristã neste mundo em progressivo escurecimento. Talvez os teólogos profissionais não consigam ajudar os que teimam em viver a vida cristã apenas com o auxílio precário da teologia popular, mas sua principal tarefa ou contribuição reside em servir aos teólogos leigos e ministros — ensinando pastores em seminários, faculdades e universidades ligadas a igrejas e escrevendo livros e artigos para ajudar teólogos leigos e ministeriais em suas jornadas de reflexão. Em sua melhor expressão, a teologia profissional exerce o papel de serva, e não o papel senhoril. Ou seja, o teólogo profissional serve à comunidade cristã ajudando pessoas a pensar como Cristo, a fim de que possam ser mais eficazes no testemunho e no serviço, tanto na igreja quanto no mundo.

TEOLOGIA ACADÊMICA

Na extremidade do leque — além da teologia profissional e totalmente oposta à teologia popular —, está a teologia acadêmica. É altamente especulativa, quase filosófica e visa, sobretudo, a outros teólogos. Nem sempre está ligada à igreja e pouca relação tem com a vida cristã autêntica.

Os teólogos profissionais podem beneficiar-se com o estudo da teologia acadêmica, e normalmente exige-se deles que a estudem até o ponto de obterem seus títulos, contudo, a igreja e os cristãos individuais que lutam no mundo real pouco lucram com ela. Considerando que o teólogo acadêmico se dedica intensamente à reflexão, ele pode levar essa reflexão, que é uma coisa boa, longe demais, separando-a da fé e buscando o entendimento em proveito próprio. Em sua pior versão, a teologia acadêmica segue o lenda “Acreditarei somente no que posso entender”, o que é bem diferente da “fé em busca do entendimento”. O romancista contemporâneo John Updike escreveu um romance inteiro sobre os conflitos entre algumas das teologias descritas acima. A personagem principal de Roger’s Version é Roger Lambert, professor de meia-idade que leciona história da teologia numa escola teológica da Nova Inglaterra. Ele tipifica o teólogo acadêmico mais Interessado no que pensa sobre Deus que no próprio Deus! Logo no início da história, encontra um jovem e sincero teólogo popular — que estuda informática na mesma escola — empenhado em provar a existência de Deus por meio de programas de computador e sem nenhum interesse pela teologia formal, acadêmica. Seus encontros e interações proporcionam um interessante — mas não necessariamente edificante! — estudo de caso sobre os extremos do leque da reflexão teológica. Muito antagonismo para com a teologia emerge do equívoco de dois homens que professam lados opostos da teologia — o estudante refratário ao pensamento crítico que demoniza a reflexão, equiparando-a ao pecado da dúvida, e o professor arrogante e indiferente que despreza as dúvidas e preocupações dos cristãos comuns.

TEOLOGIAS INTERDEPENDENTES

A teologia popular e a teologia acadêmica possuem pouco valor — exceto quando se escreve a narrativa repleta de tensões e conflitos situada numa escola universitária de teologia. Na realidade, elas às vezes oferecem perigo à tarefa de examinar, entender e articular a fé cristã. As teologias situadas nos espaços entre esses extremos são todas necessárias e benéficas e de fato se entrelaçam. Teólogos ministeriais devem usar as ferramentas e métodos dos teólogos profissionais para instruir e aprimorar os teólogos leigos, a fim de que estejam preparados para justificar sua esperança aos que dela lhes pedirem conta (1 Pedro 3.15).

A igreja cristã e cristãos que individualmente buscam crescer na fé precisam de teologia leiga, ministerial e profissional. Evidentemente nem todo cristão precisa tornar-se teólogo profissional. Porém, cristãos leigos que buscam aumentar a compreensão de sua fé e crescer acima da teologia popular precisam da ajuda de teólogos ministeriais, que por sua vez utilizam as ferramentas, o treinamento e as descobertas de teólogos profissionais. Teólogos profissionais precisam da comunidade de cristãos leigos conduzida por ministros como contexto para pensar e refletir criticamente. Seu propósito é servir a essa congregação — até mesmo quando seu serviço não for plenamente entendido ou apreciado.

Por isso, quando dizemos que “nem todas as teologias são iguais” não queremos dizer que a teologia profissional seja melhor que a ministerial ou que a teologia ministerial seja melhor que a leiga. Na verdade, estamos afirmando que as três são preferíveis à teologia popular. São igualmente valiosas entre si, embora envolvam níveis diferentes de habilidade na reflexão sobre a fé cristã e seu significado, são níveis interdependentes, e as linhas de comunicação entre eles precisam de fortalecimento. Sem a teologia ministerial e profissional, a teologia leiga com demasiada facilidade tende a recair na teologia popular. O jovem universitário do exemplo inicial deste capítulo em um teólogo leigo que escorregava para a teologia popular devido à recusa em aceitar correção e ajuda da teologia profissional.

A personagem de Roger’s Versions tomou-se teólogo acadêmico, pelo menos em parte, porque deslizou lentamente para o desprezo pela igreja e pelos cristãos “normais” e passou a valorizar os próprios pensamentos sobre Deus mais que a congregação do povo de Deus, à qual deveria servir. Esse é o destino mais comum dos teólogos profissionais que não mantêm contato regular com cristãos leigos e seus pastores.

Fonte:

GRENTZ Stanley J. e OLSON, Roger E.. Iniciação à Teologia: um convite ao estudo acerca de Deus e de sua relação com o ser humano. São Paulo: Editora Vida, 2006.

Visão Panorâmica dos Apócrifos

Canonicidade dos apócrifos

        Sobre o problema da canonicidade dos apócrifos, o padre José Carlos Rodrigues afirma: 

       Assim, a primeira versão latina da Bíblia (Itália) feita da LXX [Septuaginta] continha, segundo a opinião dos melhores críticos, todos os apócrifos exceto III e IV Macabeus, mas acrescentou-lhe IV Esdras, que corria em separado. Na versão de Jerônimo do original hebraico ele excluiu, está visto, os apócrifos, cingindo-se aos 22 livros daquele códice. Mais tarde, disse porém (no seu Prol. dos Liv. de Sal.) que “como a igreja lê Judite e Tobias e os livros Macabeus, apesar de não recebê-los no Cânon das suas  Escrituras, também deve ler estes dois livros (Sabedoria e Eclesiástico) para mera edificação, não para confirmação dos dogmas da mesma igreja”. 

        Depois dessa concessão, não é de admirar que todos os apócrifos fossem obtendo reconhecimento geral. Nos concílios de Hipo ou Hipona (393) e Cartago (397), dominados por Agostinho, foram reconhecidos como canônicos Tobias, Judite, 1Macabeus, 2Macabeus, Sabedoria e Eclesiástico. Até o Concílio de Trento, em 1546, grandes autoridades eclesiástica dos católicos romanos ainda se manifestavam contra a canonicidade dos apócrifos, bastando citar Tomás de Aquino, no século XIII. Trento, porém, admitiu como canônicos 3Esdras, 4Esdras, Tobias, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1Macabeus e 2Macabeus, bem como os acréscimos a Ester e Daniel. Dos chamados apócrifos, que corriam, o concílio só excluiu o 3Macabeus e 4Macabeus.

     Para nós, todos os “apócrifos” ou “deuterocanônicos” estão no mesmo plano, isto é, são extrabíblicos e não são inspirados. A literatura apócrifa é pouco reconhecida. “O seu estudo nos fascina”, afirma o padre José Carlos Rodrigues, “por apresentar-nos as ideias que flutuavam no judaísmo, quando dele nasceu o cristianismo”. Em nosso estudo, a literatura apócrifa vem ao nosso auxílio fornecendo-nos dados históricos e mostrando-nos o ambiente do Período Intertestamentário.

Eis abaixo um panorama dos apócrifos mais famosos:

3Esdras

Na Septuaginta, os livros canônicos de Esdras e Neemias são designados respectivamente 1Esdras e 2Esdras. Os livros de 3Esdras e 4Esdras correspondem aos apócrifos e são ali chamados Esdras A e Esdras B. O livro relata a história de Josias quando celebrou a Páscoa; menciona as realizações dos últimos reis de Judá; alude ao decreto de Ciro, à carta dos samaritanos a Artaxerxes, às ordens de Damasco, ao triunfo de Zorobabel, à reconstrução do templo de Jerusalém e de sua dedicação ao Senhor, à chegada de Esdras na Cidade Santa com sacerdotes e levitas e à leitura da Lei de Moisés em 444 a.C. O autor desse “apócrifo” inverte a ordem dos reis persas e dificulta a inteligibilidade de alguns passos históricos. O que caracteriza o livro é a história de três rapazes e a vitória de Zorobabel, que, segundo José Carlos Rodrigues, são verdadeiros contos orientais, à semelhança de “Noites árabes”. Aparece no livro um debate sobre “Qual a coisa mais bela?” Há também outras histórias hilariantes.

4Esdras

Afirma-se que tenha sido escrito em grego e depois traduzido para o latim, mas até hoje só foi encontrada a parte latina. O que levou muitos críticos a essa conclusão foi o número absurdo de helenismos presentes na obra. Atribui-se que o livro tenha sido escrito nos dias do imperador Domiciano (81-96 d.C.). Parte do livro baseia-se nas tradições judaicas e partes em tradições cristãs. Consta sobretudo de uma série de revelações a Esdras concedidas por um anjo. O judaísmo é apresentado nessas revelações em seus melhores aspectos. 

  • 1. Primeira visão (3.1—5.20). Esdras está sentado em Jerusalém, 30 anos depois de sua destruição. O vidente chora ante as ruínas da grande cidade e ante o opróbrio de seu povo, humilhado no exílio. Nesses momentos de tristezas, aparece-lhe o anjo Uriel, que o censura, dizendo-lhe que a maldade deve permanecer algum tempo, do mesmo modo como as almas no inferno têm o seu tempo de ali permanecerem.
  • 2. Segunda visão (5.21—6.34). Esdras queixa-se. O mesmo anjo lhe aparece. Desta vez para lhe dizer que o “fim” está próximo e quem o trará é o próprio Criador. 
  • 3. Terceira visão (6.35—9.25). O anjo Uriel explica a Esdras que quando o fim do mundo estiver iminente, cujos sinais já lhe foram concedidos, Deus enviará o seu Filho Unigênito com a corte de sua Majestade. Haverá então um período de 400 anos de alegria completa. Findo esses anos, o Filho e os seus escolhidos morrerão. Segue-se a ressurreição, para o juízo, cujo tempo é de um ano-semana. Nessa ocasião, haverá separação entre bons e maus. Como severo castigo, não haverá mais tempo para arrependimento. Ninguém poderá interceder pelos maus. Diante disso, o vidente lastima que tão poucos se salvem, ao que o anjo lhe retruca: “... os únicos culpados desse estado de perdição foram eles mesmos que escolheram o caminho da impiedade”.
  • 4. Quarta visão (9.26—10.60). Esdras continua a se queixar. Levantando porém os olhos, vê uma mulher, cujo único filho concebido após 30 anos de esterilidade morrerá à espada quando a cidade for destruída. Ele morrerá exatamente no dia em que se casaria. A mulher levanta o rosto e grita; a terra treme, muda-se o cenário; em lugar da mulher, o vidente depara-se com o panorama de uma encantadora cidade. Uriel então explica-lhe a visão: a mulher é Sião; os 30 anos correspondem aos 300 anos em que ali não se ofereceu sacrifício ao Deus Verdadeiro; o nascimento do filho, a construção do templo de Salomão; a sua morte, a queda de Jerusalém; a nova cidade, Jerusalém reedificada, cuja visão deveria confortar Esdras. 
  • 5. Quinta visão (11.1—12.51). Esta é a mais terrível e complicada. Esdras vê que do mar sobe uma estranha águia com três cabeças e seis pares de asas, além de oito sobre asas. As asas se dominam mutuamente por vários períodos, até se acabarem, restando apenas três pares de pequenas asas que, pouco a pouco, se vão consumindo. A cabeça do centro domina a terra toda; no fim, desaparece. As duas restantes se devoram simultaneamente. Levanta-se um leão que, com voz de homem, brada que a águia era o quarto dos animais a quem Deus confiara a direção do mundo. Tal águia era representativa do último reino de Daniel; as asas eram reinos também. O leão não era senão o Messias do Altíssimo, separado para determinado objetivo. Depois do desenrolar dessas cenas, Uriel ordena ao vidente que registrasse essa revelação, mas não a divulgasse. 
  • 6. Sexta visão (13.1-58). O vidente contempla um homem saindo do mar; a esse se vêm juntar multidões de outros homens. O anjo diz a Esdras: o homem da visão é aquele por meio de quem Deus resgatará toda a criação. Os seus inimigos serão extintos pela Lei, que é um verdadeiro fogo. 
  • 7. Sétima visão (14.1-50). O anjo ordena a Esdras que leve a notícia a seu povo, a fim de que este se preparasse convenientemente, pois o Poderoso vai levá-lo da terra. 

1—2Macabeus

Considera-se 1Macabeus, de autor desconhecido, o mais importante dos apócrifos. Não se sabe quando foi escrito. É quase uma fonte histórica de informação sobre a família Macabeia. Foi escrito em hebraico, mas só temos cópias em grego. O autor revela-se perito historiador, homem religioso, grande patriota e criterioso. Tem especial predileção por Judas Macabeu. O livro narra a história de como a Síria chegou a governar a Palestina durante 40 anos (175-135 a.C.), só sendo liberta quando João Hircano começou a reinar ali. Na purificação do templo discutiu-se a questão de onde ficariam as pedras do velho altar, atualmente profanadas e poluídas pelos sírios. Resolveram guardá-las até que viesse um profeta que determinasse sobre elas. O texto esclarece que a eleição de Simão para o cargo de sumo sacerdote seria interinamente, até que surgisse um profeta.

O livro de 2Macabeus é bem diferente do primeiro. Foi escrito muito mais tarde. Conforme lemos em 2.23, esse livro é resumo de uma história mais desenvolvida, em cinco volumes. Seu autor foi Jason de Cirene e abrange um período de 15 anos do período compreendido no primeiro livro, embora sejam independentes. O prefácio de 2Macabeus tanto tem de longo como de desconexo. O autor discute o saque ao templo por Seleuco IV e termina na vitória de Judas sobre Nicanor (160 a.C.). O livro está eivado de lendas. Encontramos nele a que diz respeito à Arca, que seria oculta numa caverna, até que os judeus voltassem do cativeiro. Encontramos nele a doutrina da intercessão pelos santos (7.28; 15.14). Aparece também a crença na oração pelos mortos, doutrina estranha ao Antigo Testamento.

Tobias

É um livro de história. Refere-se a Tobiel, pai de Tobias, da tribo de Neftalí. Segundo algumas tradições, a família de Tobiel foi levada cativa para Nínive, onde permaneceu. Tobiel entregara a um amigo em Rages, na Média, certa quantia em dinheiro. Era observador fiel e rígido de Moisés, e crente muito piedoso. No exílio, entregava-se a obras de beneficência, enterrando os cadáveres de seus patrícios, abandonados insepultos pela impiedade dos filhos de Assur. Conta-se que, certa vez, voltando de sepultar um judeu, não desejando continuar em sua casa, dormiu ao ar livre e, ao acordar, estava completamente cego. No decorrer dos anos, já velho, enviou seu filho Tobias a Rages buscar os dez talentos de prata que ali deixara. Ao longo do caminho, Tobias depara-se com um homem que também ia a Rages à procura desses dez talentos de prata. Era o anjo Rafael disfarçado. Banhando-se ambos no rio, Tobias apanha um peixe, cujo fígado, segundo ordem do anjo, deveria ser guardado e estar sempre com ele. Em Rages, Tobias recebe os dez talentos de Gabel, por cuja filha se apaixona e a quem propôs casamento. Esta, porém, tivera sete maridos, todos morrendo na noite do casamento pela maldade do demônio Asmodeu. Rafael ordenou a Tobias que, ao entrar no camarim nupcial, queimasse o fígado do peixe, cuja fumaça espaventaria Asmodeu. Feito isto, logo a felicidade lhe sorriu. De regresso, Tobias curou a cegueira de seu pai, que ainda viveu 100 anos. O próprio Tobias viveu 127 anos. 

Judite

Esse livro é uma exortação. Nota-se nele grande influência farisaica. A cena desenrola-se da seguinte maneira: o rei Nabucodonosor, da Assíria [?], querendo atacar Arfaxão ou Arfaxad, rei da Média [?], pediu reforços à suas colônias, que negaram o auxílio. Holofernes, general de Nabucodonosor, é o vencedor. O espírito de vingança o levou a perseguir pequenas colônias, contando-se entre elas Israel. Holofernes cercou a cidade de Betúlia em Esdraelon; quando ia precipitar-se sobre aquele povo, Judite, uma linda viúva judia, foi ter com Holofernes. Este ficou deslumbrado diante da beleza de Judite; mandou preparar um banquete, onde se embriagou grandemente. Após as festas, retirando-se o povo, Judite ficou só, na tenda, com Holofernes. Valendo-se da embriaguez do general, Judite o degola com sua própria espada, mete-lhe a cabeça no saco de sua escrava, entra em Betúlia aos aplausos, e às aclamações do seu povo que, frenético, a recebeu.

Eclesiástico

Afirma-se que é o principal ou a fina flor dos apócrifos. No entanto, não ganhou lugar entre os livros canônicos do Antigo Testamento. Originalmente foi escrito em hebraico, num estilo dos mais apurados. Parte do original foi descoberta em 1896 e impressa no ano seguinte na imprensa da Universidade de Oxford pelo editor A. E. Cowley. Está incluído na Septuaginta com o nome de Sabedoria de Jesus, filho de Sirac. Cipriano, do século III d.C., o designou Eclesiasticus. Os latinos o usaram. Agostinho, no seu “Speculum”, coleção de versos bíblicos, destinou cerca de 15% do espaço de seu livro a passagens desse livro, que é composto de 51 capítulos. Foi escrito possivelmente no tempo do rei Fiscon, irmão de Ptolomeu VII, cerca de 180 a.C. Seu estilo assemelha-se ao de Provérbios, sendo, em tudo, mais homogêneo. Nota-se através de suas linhas que o autor é um grande observador, homem de espírito  levado e profundamente religioso. “Como nos Provérbios”, diz José Carlos Rodrigues, “o autor usa a forma curta de apotegma para incutir os resultados a que chega a sua análise”. O filho de Sirac afirma que a verdadeira sabedoria está, em forma absoluta, em Deus. Obedecer ao Senhor é revelar profunda sabedoria. Eclesiástico estuda as diversas relações entre os homens; dá regras e conselho a todos, como viver na pobreza ou na riqueza, enfermo ou com saúde, na mocidade ou na velhice, na presença de amigos ou de inimigos. É filosofia prática. O autor exalta e louva a Lei de Moisés; entretanto, não se exime da influência do panteísmo grego, onde deixa transparecer traços fundos dessa corrente filosófica em sua obra. Afirma-se que Eclesiástico exerceu alguma influência no cristianismo, principalmente na carta de Tiago. 

Sabedoria de Salomão

Não se conhece o autor desse livro. Originalmente, foi escrito em grego, num estilo esmerado, supondo ter sido escrito por um sábio de Alexandria, entre 150 e 130 a.C. Deduz-se que seu autor era um fervoroso adepto da religião judaica. Seu autor conclui que a única coisa certa era o seu Deus e com ele estava a verdadeira Sabedoria, que, lado a lado com Deus, presidia a tudo. Percebe-se que o livro foi escrito para combater acentuada tendência generalizada entre seus compatriotas de se deixarem arrastar pelas caudalosas avalanches de outros credos religiosos. O autor é de uma penetração rara quando externa sobre a imortalidade da alma humana, afirmando que o homem foi criado à imagem de Deus, “à imagem de sua eternidade”. Também expõe de maneira singular o multissecular problema do sofrimento humano. Nota-se através de suas páginas que o livro é, em grande parte, um libelo terrível contra o epicurismo, cuja semente germinada produz frutos de incredulidade. O livro é precioso, ainda que haja nas suas partes coisas de pouco sabor bíblico, o que impediu sua entrada no cânon.

Acréscimos a Ester

Quem lê o livro canônico de Ester notará que o nome de Deus não aparece uma só vez. Sentindo essa falta, copistas habilidosos dentre os judeus helenistas resolveram infundir-lhe pequenos trechos sobre Deus; fizeram-no, entretanto, sem qualquer êxito, pois tais acréscimos feitos em 114 a.C. não conseguiram incorporação no texto canônico.

Acréscimos a Daniel

O texto grego de Daniel difere do original por incorporar três acréscimos engendrados, não pelos tradutores da Septuaginta, mas por copistas posteriores. Os acréscimos são: “Oração de Azarias e a ação de graças dos três rapazes na fornalha”, “História de Suzana” e “Bel e o Dragão”. Propositadamente deixamos de nos referir a cada uma dessas lendas, que não lograram nenhum êxito no cânon devido ao fato de judeus acharem que o livro é um amontoado de histórias imaginárias, inverídicas, que não afinam com o diapasão bíblico.

Baruque

Esse apócrifo, escrito em Babilônia no século V após a destruição de Jerusalém, é pálida imitação do grande profeta Jeremias. A tentativa do autor de Baruque foi frustrada de modo absoluto. O padre José Carlos Rodrigues afirma que o livro foi escrito em 75 ou 80 da nossa era. Nesse caso, o autor referia-se não a Babilônia, mas a Roma; não ao monarca Nabucodonosor, mas a Tito, filho de Vespasiano. O livro pode ser dividido em três partes: “Liturgia”, “Lei” e “Profecia”.

Enoque

Trata-se de um livro apocalíptico. Dentro desse gênero, há críticos que o reputam como o principal, o mais importante. O nome refere-se ao Enoque de Gênesis 5.24, que viveu 365 anos. Surgiram muitas lendas e histórias em torno de tão ilustre personagem; algumas dentre os judeus, outras fora da Palestina. Devido ao fato de Enoque não ter provado a morte, atribuíam-lhe poderes de operar maravilhas e um conhecimento especial dos mistérios da natureza. As revelações que encontramos nesse livro foram dadas por Enoque. Esse livro é chamado 1Enoque para distinguir de Segredos de Enoque, que mais tarde foi denominado de 2Enoque. 1Enoque perdeu-se. Há pouco mais de um século acharam fragmentos dele na Abissínia. De 2Enoque só se conhece a versão eslavônica. Possivelmente foi escrito por diversas pessoas. O livro divide-se assim: “O apocalipse das semanas”, “Fragmentos do livro de Noé”, “As visões”, “Livros dos lumiares celestes”, “Similitudes” e “Parte final”. A data mais aproximada para a produção de Enoque é um período que vai de 130 a 100 a.C.

  • A primeira parte do 1Enoque (caps. 1—36) é uma visão em que ele implora o perdão de Deus pelos anjos decaídos, que introduziram o pecado no mundo. Deus não lho concede. Resolve girar a terra e o inferno acompanhado de anjo de luz. Na terra, descreve sete arcanjos; no inferno, ele vê os anjos decaídos, cuja prisão se estende de eternidade a eternidade. Saindo do inferno, vê sete montanhas, na mais elevada das quais está Deus no seu trono e junto à arvore da vida.
  • Na segunda parte, “Parábolas” ou “Similitudes” (caps. 37—71), é uma profecia contra os poderosos injustos; serão punidos pela inexorável justiça dos céus. Também nos reporta à habilitação dos justos, cujo serviço principal é adotar continuamente o Deus eterno. No topo da glória, ele vê o “Eleito”, o “Filho do Homem”, cuja missão é julgar. O autor alude à conversão dos gentios e à ressurreição.
  • Na terceira parte (caps. 72—82), o autor se prende à astronomia, que, pelas características, bem poderíamos chamá-la de “astrologia”. Na quarta parte (caps. 83—105) notam-se enormes interpretações e grande confusão. Fala, entretanto, da conversão dos gentios, da ressurreição dos justos e da aparição do Messias.

Apocalipse de Baruque

Supõe-se que o livro hoje conhecido como Apocalipse de Baruque foi escrito logo após a destruição de Jerusalém pelos babilônicos. É uma série de visões. Em vez de ver os babilônios destruindo a Cidade Santa, Baruque vê quatro anjos. Os gentios serão destruídos e então virá o juízo sobre todos os ímpios. Numa das visões, Baruque vê quatro reinos; quando o último estiver prestes a cair, aparecerá o Ungido, cujo reinado será “para sempre”. Prosseguem as revelações sobre a natureza da nova ressurreição, a felicidade dos justos e o castigo dos ímpios. Baruque tem outra visão: a nuvem negra despejando água da mesma cor, mas depois se torna clara. A nuvem é este mundo; as águas, Israel, cuja história oscila para limpidez das águas claras, apresentando os áureos tempos do reinado do Ungido do Senhor, em cujo domínio não haverá tribulação. O livro termina com o capítulo 87. Chegando-se a essa altura, tem-se a impressão de que a história de tais revelações deveria prosseguir. Daí a conjectura de alguns críticos de que a última parte desse livro foi perdida. Os 87 capítulos encontram-se em siríaco.

Testamento dos doze patriarcas

Esse livro foi encontrado em 1300 d.C., num manuscrito grego do século X. Nesse livro, o autor apresenta o testamento dos patriarcas, como se cada um o tivesse escrito, em que se narram seus pecados e suas virtudes. Cada patriarca prevê o futuro de sua tribo. Os críticos se dividem quanto ao tempo em que esse livro foi escrito. Uns afirmam que foi produzido antes de Cristo; outros defendem que é produto da pena de um cristão. Por certas referências, é possível que tenha sido escrito por um cristão.

O livro dos jubileus

O “anjo da presença” concede a Moisés uma revelação divina, cujo conteúdo é a história da criação até a era mosaica, contada de 49 em 49 anos, tempo de um jubileu. A narrativa segue em linhas gerais a de Gênesis, percebendo-se a influência “midrashica”. A narrativa é feita da maneira mais simples possível. Venera-se aí a Lei, principalmente a parte cerimonial. O livro foi escrito entre 160 e 135 a.C.

Conclusão

Poderíamos ter feito resumo de cada apócrifo. Entretanto, só colocamos aqui o resumo daqueles apócrifos que interessam ao escopo deste livro. O leitor poderá ler numa edição católica romana da Bíblia os sete livros apócrifos e os dois acréscimos. Se desejar ler os demais apócrifos, examine o grande comentário de Lange, em inglês, especialmente o volume sobre os apócrifos. É o mais completo que conheço sobre o assunto. A maior parte desses livros apareceu na época da helenização do mundo, isto é, no Período Interbíblico. A leitura dessa literatura, do ponto de vista histórico, é de inestimável valor para a compreensão do estudo desse período.

Fonte:

TOGNINI, Enéas. O período Interbíblico. São Paulo: Hagnos, 2009

As 9 Dinastias do Reino do Norte (Israel)


        O Reino do Norte teve nove dinastias e 19 reis. Nenhum deles "andou nos caminhos de Davi”, sendo que a maioria "andou em todos os caminhos de Jeroboão, filho de Nebate, como também nos seus pecados com que tinha feito pecar a Israel" {1 Rs 16.26), esse refrão, ou fraseologia similar, é repetido diversas vezes em 1 e 2 Reis (1 Rs 22.52; 2 Rs 3.3; 10.29; 13.2, 11; 14.24; 15.9, 18, 24).

Primeira dinastia. Foi fundada por Jeroboão I, seu filho, Nadabe, herdou o trono, mas foi assassinado por Baasa: dois reis (1 Rs 12.19,20; 15.27-29).

Segunda dinastia. Fundada por Baasa, seu filho Elá, que herdou o trono e foi assassinado por Zinri: dois reis (1 Rs 16.6, 12-14).

Terceira dinastia. Foi de apenas um rei, Zinri, que reinou apenas oito dias, até que cometeu suicídio: um rei (1 Rs 16.15,16).

■ Quarta dinastia. Onri e Tibni disputaram o trono do Reino do Norte, pois o povo estava dividido, e Onri venceu. Fundou a quarta dinastia e reinou 12 anos, reinaram quatro reis. Comprou o monte de Samaria e fez da cidade a capital do seu reino (1 Rs 16.21 -34). Seus sucessores foram: Acabe, Acazias e Jorão. O último foi assassinado por Jeú, o que marcou o fim da casa de Onri, ou de Acabe, seu filho (1 Rs 16.28; 22.40; 2 Rs 1.17; 9.24). Quarta dinastia: quatro reis.

■ Quinta dinastia. Foi fundada por Jeú, que exterminou toda a casa de Acabe com os seus 70 filhos (2 Rs 10.1, 11, 14). Seus sucessores foram: Jeoacaz, Joás, Jeroboão II e Zacarias: cinco reis (2 Rs 13.1, 9, 13; 14.29).

■ Sexta dinastia. Fundada por Salum ao assassinar o rei Zacarias numa conspiração (2 Rs 15.10), mas reinou apenas um mês e foi assassinado por Menaém, que assumiu o poder: um rei  (2 Rs 15.13, 14).

■ Sétima dinastia. Fundada por Menaém, que reinou 10 anos. Seu filho, Pecaias, sucedeu-lhe no trono, mas foi assassinado por Peca: dois reis (2 Rs 15.22, 25).

Oitava dinastia. Fundada por Peca, assassinado numa conspiração por Oseias: apenas um rei (2 Rs 15.30).

Nona e última dinastia. Fundada por Oseias, que reinou nove anos e foi deposto pelos assírios. É o começo do cativeiro assírio, em que as dez tribos do norte foram levadas para o cativeiro, em 722 a.C: um rei . (2 Rs 17.1-3, 6).

        Samaria veio a ser a sede do governo das dez tribos do norte. Onri, pai do rei Acabe, comprou um monte de "Semer", de onde vem o nome "Samaria” ou "Samária", em hebraico ]Í"10ÊÍ {shõmrôn) (1 Rs 16.24). A situação do Reino do Norte se deteriorou mais depressa, a decadência caminhava para a anarquia generalizada à medida que o tempo passava. O reinado de Jeroboão II foi próspero, mas corrupto, caracterizado pela violência e pelas injustiças sociais. Samaria caiu em 722 d.C., conquistada por Salmaneser V (2 Rs 17.3) e foi consumada depois por Sargão II {Is 20.1). É o fim do Reino do Norte.

        Os pecados de Samaria eram devastadores, o relato dos livros dos reis revela a instabilidade política por conta da apostasia. Essa situação é confirmada nos oráculos do profeta Oseias, combatendo a idolatria, acompanhada de prostituição, de toda espécie de vício e de violência (Os 4.1-9; 5.1-9; 7.1). A política externa era conduzida de forma insensata, o que levou Israel a confiar nessas alianças internacionais e não em Javé, pois eles haviam perdido a fé em Deus (7.11; 8.9). A festa da coroação dos reis tornou-se evento para maquinações de assassinatos em série, rei após rei, juiz após juiz, uma cadeia de conspiradores (2 Rs 15.10; Os 7.5). Porém, Amós foi o único profeta do Reino do Norte a bradar com veemência contra as injustiças sociais.

Fonte:

SOARES, Esequias . O Ministério Profético na Bíblia. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

AS SETE DISPENSAÇÕES


AS SETE DISPENSAÇÕES

As Escrituras dividem o tempo (o período total desde a criação de Adão até "o novo céu e a nova terra" de Ap 21.1) em sete períodos desiguais, chamados normalmente dispensações (Ef 3.2), embora também sejam conhecidos como eras, séculos (Ef 2.7) ou dias, como em "dia do Senhor".

Esses períodos são separados na Bíblia por alguma mudança no método do Senhor de lidar com o gênero humano ou uma parte dele. Em relação a estas duas questões: pecado e responsabilidade do homem, cada uma das dispensações pode ser considerada como um novo teste da natureza humana e cada uma termina em julgamento do homem, marcando seu fracasso absoluto em todas elas. Cinco dessas dispensações ou períodos foram cumpridos; estamos vivendo a sexta, provavelmente próximos de seu final, e temos à nossa frente a sétima e última dispensação: o milênio.

1. Inocência. Esta dispensação se estende desde a criação de Adão em Gênesis 2:7 até a expulsão do Éden. Adão, criado inocente e ignorando o bem e o mal, foi colocado no jardim do Éden com sua esposa, Eva, e foi-lhe dada a responsabilidade de se privar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A dispensação da inocência resultou no primeiro fracasso do homem e seus efeitos de longo alcance, muito desastrosos. Terminou com o julgamento: "O Senhor pois o lançou fora" (Ver Gn 1.26; Gn 2.16,17; Gn 3.6; Gn 3.22-24).

2. Consciência. Com a queda, Adão e Eva adquiriram e transmitiram à raça humana o conhecimento do bem e do mal. Isso deu à consciência a base para o correto julgamento moral e, assim, ao homem foi dada a responsabilidade de fazer o bem e evitar o mal. O resultado da dispensação da consciência, do Éden até o dilúvio (enquanto não havia nenhuma instituição de governo e de lei) foi que "toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra" e que "a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente". E Deus encerrou a segunda prova do homem natural com julgamento: o dilúvio. (Veja Gn 3.7,22; Gn 6.5,11,12; Gn 7.11,12, 23).

3. Governo Humano. Do terrível julgamento do dilúvio, Deus salvou oito pessoas, para as quais, depois que as águas foram serenadas, deu a terra purificada e amplo poder para governá-la. Assim, Noé e seus descendentes eram responsáveis por fazê-lo. A dispensação do governo humano resultou na tentativa dos ímpios, no monte Sinai, de se tornarem  independentes de Deus e terminou com o julgamento da confusão das línguas. (Veja Gn 9.1,2; Gn 11.1-3; Gn 11.5-8)

4. Promessa (ou Patriarcal). Depois da dispensação dos construtores da torre de Babel, Deus chamou um homem, Abrão, com o qual ele fez uma aliança. Algumas das promessas feitas a Abrão e a seus descendentes são puramente gratuitas e incondicionais. Elas também foram ou serão literalmente cumpridas. Outras promessas são condicionadas à fé e à obediência dos israelitas. Cada uma dessas condições foi violada, e a dispensação da promessa resultou no fracasso de Israel e terminou com o julgamento do cativeiro no Egito.

O livro de Gênesis, que se inicia com as palavras sublimes "No princípio criou Deus" termina com "num caixão no Egito". (Veja Gn 12.1-3; Gn 13.14- 17; Gn 15.5; Gn 26.3; Gn 28.12,13; Êx 1.13,14)

5. Lei. Uma vez mais a graça de Deus veio para ajudar o homem desamparado e libertar o povo escolhido das mãos do opressor. No deserto do Sinai, ele lhes apresentou o convênio da lei. Ao invés de rogar humildemente pela continuidade de uma relação de graça, responderam insolentemente: "Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos". A história de Israel no deserto é um longo registro da violação flagrante e persistente da lei e, no final, depois de muitas advertências, Deus encerrou essa prova com julgamento: primeiro Israel e depois Judá foram retirados de sua terra em uma dispersão que ainda perdura. Um débil remanescente retornou em Esdras e Neemias, de quem, no seu devido tempo, veio Cristo: "nascido de mulher, nascido sob a lei". Tanto judeus quanto gentios conspiraram para crucificá-lo. (Veja Êx 19.1-8; 2 Rs 17.1-18; 2 Rs 25.1-11; At 2.22,23; At 7.51,52; Rm 3.19,20; Rm 10.5; G13.10)

6. Igreja (ou Graça). A morte sacrificial do Senhor Jesus Cristo introduziu a dispensação da Igreja, da graça pura, que significa favor imerecido, ou seja, Deus oferece virtude em vez de exigir virtude, como de direito. Salvação perfeita e eterna é agora oferecida liberalmente a judeus e gentios mediante o reconhecimento do pecado ou arrependimento, com fé em Cristo.

"Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou" (Jo 6.29). "Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna" (Jo 6.47). "Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida" (Jo 5.24). "As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem. E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão" (Jo 10.27,28). "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8,9).

O resultado previsto dessa prova do homem sob a graça é julgamento sobre um mundo incrédulo e uma igreja apóstata. (Veja Lc 17.26-30; Lc 18.8; II Ts 2.7-12; Ap 3.15,16)

O primeiro evento no final desta dispensação será o regresso do Senhor dos céus, quando os santos que já dormiram serão ressuscitados e, juntamente com os que estiverem vivos, arrebatados para "encontrar o Senhor nos ares; e assim estaremos sempre com o Senhor" (I Ts 4.16,17). Então se seguirá o breve período chamado "grande aflição". (Veja Jr 30.5-7; Dn 12.1; Sf 1.15- 18; Mt. 24.21,22)

Depois disso, ocorrerá o regresso pessoal do Senhor à Terra, em poder e grande glória, e os julgamentos que introduzirão a sétima e última dispensação. (Veja Mt 25.31-46 e Mt 24.29,30)

7. Reino (ou Milênio). Depois dos julgamentos purificadores que acompanharão o retorno pessoal de Cristo à Terra, ele reinará sobre Israel restaurada e sobre a Terra por mil anos. Esse é o período normalmente chamado de milênio. A sede de seu poder será Jerusalém, e os crentes, inclusive os que foram salvos na dispensação da graça, isto é, a igreja, se associarão a ele e sua glória. (Veja Is 2.1- 4; Is 11; At 15.14-17; Ap 19.11-21; Ap 20.1-6)

Mas quando Satanás for "solto por um pouco de tempo", encontrará o coração natural muito propenso a praticar o mal, como sempre, e facilmente reunirá as nações para a batalha contra o Senhor e seus santos, e essa última dispensação terminará, como todas as outras, com julgamento. O grande trono branco será estabelecido, os ímpios mortos serão ressuscitados e definitivamente julgados e, em seguida, virão o novo céu e a nova terra. A Eternidade se iniciará. (Veja Ap 20.3, 7-15; Ap 21 e 22)

"(...) anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir." 1 PEDRO 1.11

Fonte:

SCOFIELD, C.I. Manejando bem a palavra da verdade. São Paulo: Holy Bible, 2010.

OS 8 TIPOS DE INTELIGÊNCIA


Dons Naturais

            Em sua infinita bondade, Deus “...é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas” (Atos 17.25). Além da vida humana, infundida no ato da criação, e na geração de cada novo ser vivo, Deus concede, através da natureza, o ar, a água, o sol, a chuva, a germinação das plantas, os frutos, os alimentos e tudo o que é necessário à sobrevivência no planeta. São “dons” ou dádivas naturais. E fruto da graça de Deus.

        Para o naturalista, tudo isso é resultado de um processo ecológico, fruto do acaso cego. E a suprema ignorância sobre a verdadeira origem da Terra e do universo em geral. 

            Mas os cristãos verdadeiros, que conhecem a Palavra de Deus, como revelação divina, sabem que todo o funcionamento dos ecossistemas são fruto da criação de Deus e de sua bondade para com o homem, face o seu plano glorioso para o planeta Terra, que é propriedade de Deus (SaImo 24.1).

            De modo geral, cada pessoa tem algum tipo de habilidade para realizar determinadas coisas. A psicometria, que usa o Quociente de Inteligência (QI) como parâmetro, indica que há pessoas com nível de inteligência maior ou menor que outra. Numa outra linha de entendimento, o psicólogo Howard Gardner (1980) entende que existem 7 tipos de inteligência.

Os 8 tipos de inteligência

1) Inteligência linguística. As pessoas que possuem este tipo de inteligência tem grande facilidade de se expressar tanto oralmente quanto na forma escrita. Elas além de terem uma grande expressividade, também têm um alto grau de atenção e uma alta sensibilidade para entender pontos de vista alheios. É uma inteligência fortemente relacionada ao lado esquerdo do cérebro é uma das inteligências mais comuns.

2) Inteligência lógica: Pessoas com esse perfil de inteligência têm uma alta capacidade de memória e um grande talento para lidar com matemática e lógica em geral. Elas têm facilidade para encontrar solução de problemas complexos, tendo a capacidade de dividir estes problemas em problemas menores e ir resolvendo até chegar à resposta final. São pessoas organizadas e disciplinadas. E uma inteligência fortemente relacionada ao lado direito do cérebro.

3) Inteligência Motora: Talento para os esportes e para a dança. Pessoas com este tipo de inteligência possuem um grande talento em expressão corporal e tem uma noção espantosa de espaço, distância e profundidade. Tem um controle sobre o corpo maior que o normal, sendo capazes de realizar movimentos complexos, graciosos ou então fortes com enorme precisão e facilidade. E uma inteligência relacionada ao cerebelo que é a porção do cérebro que controla os movimentos voluntários do corpo. Presente em esportistas olímpicos e de alta performance. E um dos tipos de inteligência diretamente relacionado à coordenação e à capacidade motora.

4) Inteligência Espacial. Pessoas com este perfil de inteligência têm uma enorme facilidade para criar, imaginar e desenhar imagens 2D e 3D. Elas tem uma grande capacidade de criação em geral, mas principalmente tem um enorme talento para a arte gráfica. Pessoas com este perfil de inteligência têm como principais características a criatividade e a sensibilidade, sendo capazes de imaginar, criar e enxergar coisas que quem não tem este tipo de inteligência desenvolvido, em geral, não consegue dominar esses assuntos.

5) Inteligência Musical: É um dos tipos raros de inteligência. Pessoas com este perfil têm uma grande facilidade para escutar músicas ou sons em geral e identificar diferentes padrões e notas musicais. Eles conseguem ouvir e processar sons além do que a maioria das pessoas consegue, sendo capazes também de criar novas músicas e harmonias inéditas. Pessoas com este perfil é como se conseguissem “enxergar” através dos sons. Algumas pessoas têm esta inteligência tão evoluída que são capazes de aprender a tocar instrumentos musicais sozinhas. Assim como a inteligência espacial, este é um dos tipos de inteligência fortemente relacionados à criatividade. 

6) Inteligência Interpessoal: E um tipo de inteligência ligada à capacidade natural de liderança. Pessoas com este perfil de inteligência são extremamente ativas e em geral causam uma grande admiração nas outras pessoas. São os líderes práticos, aqueles que chamam a responsabilidade para si. Eles são calmos, diretos e tem uma enorme capacidade para convencer as pessoas a fazer tudo o que ele achar conveniente. São capazes também de identificar as qualidades das pessoas e extrair o melhor delas organizando equipes e coordenando trabalho em conjunto. 

7) Inteligência Intrapessoal: Liderança indireta para influenciar as pessoas. E um tipo raro de inteligência, também relacionado à liderança. Quem desenvolve a inteligência intrapessoal tem uma enorme facilidade em entender o que as pessoas pensam, sentem e desejam. Ao contrário dos líderes interpessoais que são ativos, os líderes intrapessoais são mais reservados, exercendo a liderança de um modo mais indireto, através do carisma e influenciando as pessoas através de ideias e não de ações. Entre os tipos de inteligência, este é considerado o mais raro. 

        Numa análise teológica, podemos dizer que esse ou aquele tipo de inteligência ou habilidade humana é dom natural de Deus, manifestado através de talentos, virtudes, capacidades inatas, ou vocações para determinadas tarefas. Porém podemos acrescentar mais um tipo de inteligencia baseado na Palavra de Deus.

8) Inteligência Espiritual. O apóstolo Paulo, em sua visão ampla acerca da vida espiritual, incluiu, em seus ensinos o conceito de “Inteligência Espiritual” (Colossenses 1.9). Sem dúvida alguma, é a inteligência concedida por Deus para os crentes compreenderem, discernirem e praticarem a vontade de Deus, em todas as áreas e situações de sua vida. A inteligência espiritual transcende os dons naturais e situa-se na esfera da ação do Espírito Santo na vida do crente. Certamente, podemos dizer que também é um dom de Deus.

Fonte:

RENOVATO, Elinaldo. Dons Espiruais e Ministeriais. Rio de Janeiro: CPAD, 2014

Lição 02 - A Inspiração Divina da Bíblia - 1 Trimestre De 2022


(Texto Áureo) “Toda a Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça. ” (II Timóteo 3.16)

“Toda a Escritura divinamente inspirada” Essa é a declaração mais forte da própria Bíblia sobre si mesma. É uma passagem que destaca o valor da Palavra de Deus. O termo “Escritura” no Novo Testamento é usado exclusivamente para a “escritura sagrada”. “Toda”, pode significar também “cada”. Há quem faça distinção entre esses dois significados, afirmando que “toda a Escritura” pode ser a Bíblia como um todo, e “toda Escritura” pode especificar suas partes individuais. “Inspirada por Deus” traduz (theopneustos), formado de (Theos, “Deus”) e (pneō, “inspirar”); literalmente, “soprada por Deus”. Alguns comentaristas acreditam que essa imagem venha da criação do homem, quando Deus “lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gênesis 2:7). Deus “soprou” a Palavra e esta passou a ser “viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” (Hebreus 4:12). Outros preferem a simples imagem de expirar. Dale Hartman falou da Bíblia como “o sopro de Deus impresso”. Independentemente da imagem pretendida, a frase expressa a atividade criadora de Deus, declarando em termos inequívocos que as Escrituras são de origem divina. O agente divino da inspiração foi o Espírito Santo. Quando se citava uma declaração de Davi, observava-se que ele estava “no Espírito Santo” quando a proferiu (Marcos 12:36). Jesus disse a Seus discípulos que enviaria o Espírito Santo para guiá-los “a toda a verdade” (João 16:13; veja 14:26). Pedro afirmou que “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:20, 21). As Escrituras não são inspiradas porque um conselho da igreja decretou que elas são inspiradas. Elas são inspiradas porque Deus as fez assim. Nenhum outro texto se enquadra na categoria “inspirado por Deus”. J. W. Roberts escreveu: Os Apócrifos Judaicos e os Pseudoepígrafos, bem como os escritos tradicionais dos primeiros pais da igreja... não pertencem à categoria das Escrituras Sagradas. Além disso, não há lugar no ensino das Escrituras para “profetas dos últimos dias” e revelações. A única predição de futuras revelações, Escrituras e “Chaves” das Escrituras é o aparecimento de falsos profetas e mestres enganadores. A maneira mais natural de se ler o versículo 16 é que “toda a Escritura é [em sua totalidade] inspirada por Deus”. Conforme observado anteriormente, a frase “sagradas letras” no versículo 15 inclui apenas os Escritos do Antigo Testamento, uma vez que esses eram os únicos escritos inspirados disponíveis quando Timóteo era criança. Também é verdade que quando os primeiros cristãos liam o termo “Escritura” (3:16), eles provavelmente pensavam primeiramente nos escritos do Antigo Testamento. Isso não significa, no entanto, que a passagem se aplique apenas ao Antigo Testamento. Em 2 Pedro 3:15 e 16, Pedro falou dos escritos de Paulo e os colocou ao lado das “demais Escrituras”. Em 1 Timóteo 5:18, Paulo falou de uma citação de Moisés e de uma citação de Lucas como “Escritura”48. Assim como no Antigo Testamento, “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21), no Novo Testamento homens guiados pelo Espírito também falaram e escreveram a verdade do céu (João 14:26; 16:13). Quando dizemos que “toda a Escritura” “é em sua totalidade inspirada por Deus”, temos em mente tanto o Antigo como o Novo Testamento. Nada afeta mais a compreensão da Bíblia do que a atitude em relação a ela. Devemos crer de todo o coração que a Bíblia é inspirada por Deus e que é tão relevante hoje como era nos dias de Paulo.

Sobre a utilidade da Palavra de Deus: “Ela é proveitosa” para:

1) “Ensinar”, ou seja, transmitir ensinos espirituais, com base na Palavra de Deus, que são úteis e necessários para um a boa formação cristã; sem ensino, nenhum a igreja se mantém de pé; é necessário que as pessoas escutem a Palavra do Senhor Jesus e as ponham em prática, para poderem ficar firmes. Do contrário, serão destruídas pelas intempéries espirituais (cf. Mateus 7,24-27; 2.25; Tito 2.12).

2) “Para redarguir” ou seja, “retrucar, responder, replicar”, ou argumentar com segurança; e também, como em outras traduções, “para repreender”; o ensino fundamentado na Palavra de Deus capacita o cristão para argumentar com segurança acerca de sua fé (cf. 1 Pedro 3.15).

3) “Para corrigir”. O ensino bíblico bem fundamentado é como um prumo, que mostra o que está fora do lugar na construção de uma casa. Na vida cristã, se não houver o cuidado indispensável com as instruções e orientações do Senhor, muita coisa fica “torta” ou em desacordo com a vontade de Deus. O ensino é que conduz o homem à santidade e à santificação (SaImo 119.105; Romanos 15.4; 1 Coríntios 4.17).

4) “Para instruir em justiça ”. O ensino da Palavra de Deus é instrução que leva o homem a viver de modo justo e digno. O salmista disse: “Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (SaImo 23.3).


DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
05/01/2022

Fontes:

BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.

RENOVATO, Elinaldo. As ordenanças de Cristo nas cartas pastorais. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.

ROPER, David. A Verdade para Hoje, 2019. Disponível em: <http://biblecourses.com/Portuguese/po_lessons/PO_201904_05.pdf>. Acesso em 03 jan.2022.

HARTMAN, Dale. “Prophecy of Scripture,” sermão pregado na igreja de Cristo Eastside, Midwest City, Oklahoma. 45

ROBERTS, J. W. Letters to Timothy, The Living Word. Austin, Tex.: R. B. Sweet Co., 1964, pp. 91–93.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Lição 01 – A autoridade da Bíblia – 1 Trimestre de 2022.


(Texto Áureo) ”Bem-aventurados os que trilham caminhos retos e andam na lei do Senhor. ” (Salmo 119.1)

O Salmo 119. Esse é um salmo por si mesmo, distinto de todos os outros; ele supera todos os outros e destaca-se por seu brilho nessa constelação. A composição dele é singular e muito precisa. Ele é dividido em vinte e duas partes, de acordo com o número de letras do alfabeto hebraico, e cada parte consiste de oito versículos, todos os versículos da primeira parte começam com álefe; todos os versículos do segundo, com bete e assim por diante, sem nenhuma falha em todo o salmo.

”bem-aventurados...” O salmista começa com uma descrição do caminho para a verdadeira bem-aventurança, como Cristo começou o seu sermão do Monte, e como todo o livro dos salmos é iniciado, em outra passagem. A bem-aventurança é aquilo que todos almejamos, mas somos ignorantes ou negligentes sobre o caminho que conduz a ela, por isto o santo salmista deseja, antes de mais nada, nos corrigir quanto à verdadeira noção de um homem bem-aventurado.  As Escrituras falam da bem-aventurança de duas maneiras: casualmente, em referência àquilo que é a causa pela qual nós obtemos o direito a este estado bem-aventurado; e, neste sentido, ela é atribuída à fé em Cristo, ao perdão dos pecados, e a justificação de vida que obtemos em Cristo. Outras vezes, as Escrituras falam formalmente da bem-aventurança, com o propósito da sua execução; e assim diz que são bem-aventurados aqueles que são perfeitos no seu caminho; pois é uma bem-aventurança realmente executada, e nos convém ter a execução e consumação da bem-aventurança iniciada em nós; assim, são bem-aventurados aqueles que suportam pacientemente os sofrimentos, os que são pobres de espírito,  etc. Se eu falo sobre um homem doente, e digo que ele é feliz, pois conheceu um bom médico, aqui eu o declaro bem-aventurado, porque encontrou alguém que lhe irá restaurar a saúde. Sendo o fim de todas as coisas o bem pessoal, e sendo a prosperidade de todas as coisas o seu objetivo - alcançar, até certo ponto, esta perfeição de ação deve necessariamente tornar um homem verdadeiramente bem-aventurado. Assim, a bem-aventurança é atribuída a andar no caminho de Deus. Se não temos o hábito de fazer alguma coisa, nós a fazemos com dificuldade, e estamos prontos a deixar de fazê-la; como um cavalo não irá seguir o ritmo ao qual não estiver perfeitamente acostumado. É por isto que os santos consideram infeliz a sua situação, até que formem o hábito que os faz andar com Deus com facilidade e constância; não havendo infelicidade maior do que nos vermos realizando bons deveres sem alegria, tão logo as iniciamos, já desistimos delas. Ao contrário, entre todas as coisas, eles consideram a mais bem-aventurada o fato de ter alcançado algum grau de hábito permanente na santidade. A bem-aventurança que é aqui descrita é a execução daquela bem-aventurança que nos vem pela fé em Cristo.

 “...os que trilham caminhos retos. ” No salmo 1, o texto era, “Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios”, mas quem poderia pensar em andar naquele caminho, sem sujar seus pés? “Andará alguém sobre as brasas, sem que se queimem os seus pés?” Aqui, no entanto, a advertência é, tomar cuidado para não adquirir nenhuma sujeira ou corrupção “no caminho” -n o caminho do Senhor. Oh, que discernimento isto nos dá, das armadilhas e ciladas que nos importunam pelo caminho, e das pragas e dos males dos nossos próprios corações, que fazem com que até mesmo em meio a coisas santas, algo sujo, ou manchado, ou enrugado, venha aderir a nós! Aquele cuja vida é reta, no sentido do Evangelho, é bem-aventurado, porque jamais poderia ter alcançado este ponto se não lhe tivessem sido concedidas milhares de bênçãos. Por natureza, nós somos corruptos e estamos fora do caminho, e por isto devemos ser lavados no sangue expiatório, para remover a corrupção, e devemos ser convertidos pelo poder do Espírito Santo, ou jamais teremos nos voltado para o caminho da paz, nem estaremos andando retamente nele. E isto não é tudo, pois o poder contínuo da graça é necessário para conservar um crente no caminho correto, e preservá-lo da contaminação. Todas as bênçãos do concerto foram, até certo ponto, derramadas sobre aqueles que, diariamente, foram capacitados à perfeita santidade no temor do Senhor. O seu caminho é a evidência de que são os bem-aventurados do Senhor.

“E andam na lei do Senhor. “ Neles se encontra a santidade habitual. O seu andar, a sua vida diária é de obediência ao Senhor. Eles vivem seguindo os mandamentos do Senhor Deus. Quer comam ou bebam, ou façam qualquer outra coisa, tudo fazem em nome do seu grande Mestre e Exemplo. Para eles, a religião não é um obstáculo, é o seu andar diário: ela molda seus atos comuns, assim como suas devoções especiais. Isto assegura a bem-aventurança. Aquele que anda na lei de Deus, anda na companhia de Deus, e é abençoado; ele tem o sorriso de Deus, a força de Deus, o segredo de Deus consigo, e como poderia deixar de ser bem-aventurado? A vida santa é um caminhar, um progresso firme, um avanço tranquilo, uma continuidade permanente. Enoque andava com Deus. Os homens de bem sempre desejam ser melhores, e por isto, avançam. Os homens de bem jamais estão ociosos, e por isto não descansam nem se demoram, mas andam, em direção ao seu fim desejado. Eles não se apressam, nem se preocupam, nem se perturbam, mas mantêm a mesma tendência no seu caminho, caminhando determinadamente rumo ao céu; e eles não se confundem, quanto à maneira como se conduzir, pois têm uma lei perfeita, à qual se alegram em obedecer. A lei do Senhor não é maçante para eles; os seus mandamentos não são dolorosos, e as suas restrições não escravizam, aos seus olhos. Ela não lhes parece ser uma lei impraticável, admirável em teoria, mas absurda na prática; eles andam nela e por ela. Eles não a consultam ocasionalmente, como um tipo de retificação de suas peregrinações, mas a usam como um mapa para o seu navegar diário, um mapa da estrada da sua jornada de vida. Eles não se lamentam por ter entrado no caminho da obediência, caso contrário o deixariam, e sem dificuldades, pois milhares de tentações lhes oferecem esta oportunidade; o seu andar contínuo na lei do Senhor é o seu melhor testemunho da bem-aventurança de tal condição de vida. 

DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
30/12/2021

Fontes:

BAPTISTA, Douglas. A Supremacia das Escrituras – a Inspirada, Inerrante e Infalível Palavra de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.

SPURGEON, Charles. Os tesouros de Davi – Volume 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Eram três reis e magos? Teólogos apontam para os mitos inseridos às narrativas bíblicas (6 de Janeiro de 2022)





Representação dos “três reis magos”. (Foto: Kalhh/ Pixabay)

“Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.” (Mateus 2.1-2)

O que quer dizer “mago” no contexto bíblico

Mago vem da palavra grega que significa “astrólogo” conforme o arqueólogo e teólogo Dr. Rodrigo Silva. Ele explica que um astrólogo, naquele tempo, era um adorador de corpos celestes, que previa o futuro através da leitura das estrelas e também analisava a influência dos astros sobre a vida das pessoas.

Para o arqueólogo, a estrela que os magos viram não era uma previsão do nascimento de Jesus, mas um sinal de que Ele havia chegado e a indicação do local onde Ele estava. “Uma manifestação celestial que ‘parecia’ uma estrela”, explicou.

E, até o dia de hoje, Deus revela sinais no sol, na lua e nas estrelas como indicação da volta de Cristo. Voltando ao termo “mago”, vale lembrar também que alguns homens de Deus receberam esse título por se destacarem entre os sábios. Veja por exemplo, o que disseram de Daniel:

“Existe um homem em teu reino que possui o espírito dos santos deuses. Na época do teu predecessor verificou-se que ele tinha percepção, inteligência e sabedoria como a dos deuses. O rei Nabucodonosor, teu predecessor, sim, teu predecessor, o rei, o nomeou chefe dos magos, dos encantadores, dos astrólogos e dos adivinhos.”

“Verificou-se que esse homem, Daniel, a quem o rei dera o nome de Beltessazar, tinha inteligência extraordinária e também a capacidade de interpretar sonhos e resolver enigmas e mistérios.” (Daniel 5.12)

Perceba que nem sempre a Bíblia se refere aos magos como feiticeiros, mas como homens sábios e de inteligência extraordinária. Quando a liderança pagã nomeava um homem de Deus como sábio, adivinho ou mago, era por causa de sua capacidade de profetizar sobre a vida das pessoas. A diferença é que a profecia e as previsões de futuro vinham de um único Deus, o Criador de todas as coisas.

Mago no contexto atual

O significado de mago, em nossa sociedade, é alguém que faz magia ou ainda que se envolve com “forças das trevas”. Se levarmos o nosso conhecimento atual para a interpretação de um texto bíblico, a nossa compreensão pode realmente ficar muito confusa.

O teólogo Yago Martins do canal “Dois Dedos de Teologia” também acredita que o termo mais adequado para os magos, seria “astrólogos do Oriente”, descrevendo pessoas envolvidas não só com astrologia, mas também astronomia. Antigamente, a ciência unificava estas duas especialidades.

Representação da estrela de Belém. (Foto: Briam Cute/ Pixabay)

A estrela como um sinal

Nos manuscritos disponíveis, naquela época, havia uma profecia sobre a vinda de Jesus, que falava sobre uma estrela:

“Eu o vejo, mas não agora; eu o avisto, mas não de perto. Uma estrela surgirá de Jacó; um cetro se levantará de Israel.” (Números 24.17)

A citação da estrela indica o sinal da vinda do Messias e a profecia revela a localidade de seu nascimento.

Gaspar, Beltazar e Belchior

Parece que estamos diante de mais um mito, pois a Bíblia não diz os nomes dos magos e nem que eram três. A única indicação numérica do texto é o fato de que Jesus recebeu três presentes: ouro, incenso e mirra. Mas isso não significa que havia exatamente três pessoas do Oriente indo visitar Jesus.

Yago Martins observa que duas pessoas poderiam entregar três presentes. Quem sabe uma quantidade maior de pessoas? Cinco, dez, vinte... O teólogo lembra que, na tradição siríaca, os magos geralmente são contados como sendo doze.

Outro detalhe é que os tipos de presentes que Jesus recebeu eram excessivamente caros para a sociedade daquela época, logo, faz sentido que um grupo de pessoas se empenhasse em adquiri-los para presentear o Salvador.

Ouro, incenso e mirra. (Foto: Canva)

Simbologias, tipos e figuras

Ouro — símbolo que representa a perfeição divina e dignidade real. 

Incenso — perfume usado nas cerimônias do tabernáculo e indica a fragrância da humanidade sem pecado de Jesus Cristo, que era percebida por todos. Por onde ele passava ficava seu aroma.

“Mas graças a Deus, que sempre nos conduz vitoriosamente em Cristo e por nosso intermédio exala em todo lugar a fragrância do seu conhecimento; porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo. “ (2 Coríntios 2.14-15)

Mirra — erva amarga que simboliza os sofrimentos e as amarguras que Jesus iria sofrer. É por isso que no livro de Isaías cita apenas o ouro e o incenso. Veja: 

“Virão todos os de Sabá carregando ouro e incenso e proclamando o louvor do Senhor.” (Isaías 60.6)

O profeta está falando da segunda vinda de Cristo, que será em poder e glória, e não em sofrimento como foi da primeira vez. 

Então, o ouro, o incenso e a mirra eram uma declaração dos magos, dizendo que Jesus era Deus e Rei, mas que estava destinado ao sofrimento — a sua morte de cruz para salvar a humanidade. 

Os magos eram reis?

Durante a leitura do texto bíblico, é normal que as pessoas associem a riqueza à monarquia. Mas não é porque os presentes eram caros que os presenteadores deveriam ser reis. 

E aqui nesse ponto, Yago faz outra observação: “Visitando o rei Herodes, seria comum que os reis fossem conhecidos dele, mas tudo indica que não eram. Eles deveriam ser apresentados de forma ‘pomposa’, mas eles aparecem de forma muito humilde no Evangelho”.

Conclusão

Nem três, nem reis e nem estritamente magos no sentido moderno. A narrativa tão conhecida e contada através dos presépios populares carrega em si um pouco de lenda e crendice popular. Conhecer a Bíblia, no entanto, pode derrubar esses mitos e nos guiar para mais perto da verdade. 

E esse foi o estudo desta semana. Espero que tenha tirado a sua dúvida e também colaborado para o seu crescimento espiritual. Beijo no coração e até a próxima, se Deus quiser!

Por Cris Beloni: jornalista cristã, pesquisadora e escritora.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Lição 13 - A Gloriosa Esperança do Apóstolo - 4 Trimestre De 2021


 (Texto Áureo) “Mas nos, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor e tendo por capacete a esperança da salvação. (1 Tessalonicenses 5.8)

“Mas nos, que somos do dia, sejamos sóbrios, ” Paulo identifica os cristãos gentios como a expressão “nós, que somos do dia” afinal outrora éramos trevas como os demais que não tem esperança, mas Deus nos resgatou desta posição de escuridão: “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor ” (Colossenses 1:12,13). Sendo assim, agora somos do dia e não podemos, mas nos relacionarmos com as obras das trevas: “E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as” (Efésios 5:11). Pois somos agora como uma carta aberta que pode ser lida e conhecida por todos (2 Coríntios 3:2), afinal, as obras que praticamos na luz glorificam o Deus que nos resgatou: “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus “ (João 3:21). Devemos ser sóbrios, temperantes, possuirmos domínio próprio, exercitarmos o autocontrole. Devemos resistir as seduções do mundo. E elevar nossos pensamentos às coisas do alto (Colossenses 3:1,2) e procurar priorizar o serviço ao reino de Deus (Mateus 6.33).

“...vestindo-nos da couraça da fé e do amor. ” O apóstolo então oferece um projeto para esses exercícios de autocontrole: os tessalonicenses são encorajados a desenvolver as três virtudes cardeais que são a fé, o amor e a esperança (1 Tessalonicenses 1.3). Lembrando-nos de sua descrição mais extensiva da armadura de Deus em Efésios 6.13-18, o apóstolo descreve estas três virtudes em termos de duas partes da armadura com que os cristãos precisam estar equipados. A Couraça diz respeito a proteção ao coração:  “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida “ (Provérbios 4:23). Jesus disse que onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração (Lucas 12:34). 1. Devemos viver pela fé, e isso nos manterá vigilantes e sóbrios. Se cremos que os olhos de Deus (que é um Espírito) estão sempre sobre nós, que temos inimigos espirituais com os quais devemos lutar, que existe um mundo de espíritos que devemos enfrentar, veremos motivos para vigiar e estar sóbrios. A fé será nossa melhor defesa contra os assaltos dos nossos inimigos. 2. Devemos ter um coração inflamado de amor; e essa também será a nossa defesa. Um amor verdadeiro e fervoroso por Deus e pelas coisas de Deus nos manterá vigilantes e sóbrios e impedirá a nossa apostasia em tempos de dificuldades e tentações.

“...e tendo por capacete a esperança da salvação. ” Capacete fala de proteção a nossa cabeça “Tomai também o capacete da salvação...” (Efésios 6:17), o cristão deve ter convicção quanto a sua fé em Deus e a certeza da sua salvação, pois, “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus “ (Romanos 8:16). Possuindo essa certeza temos esperança real em Cristo. Tanto no Antigo como no Novo Testamento Deus é a esperança dos justos, porque suas promessas garantem tudo quanto tem prometido. A esperança cristã inclui a fé em Deus e no ato salvífico de Cristo no calvário e percebe-se também que a esperança tem um caráter escatológico. Em meio ao sofrimento, o crente precisa apegar-se à esperança das promessas das Escrituras. A esperança é a fonte da força presente para os fiéis que creem no que Deus realizou em Cristo, e a garantia dessa esperança está no fato de que o Espírito Santo fortalece a nossa fé e que, se morrermos, temos uma herança eterna com Deus em sua glória. Quando foi para Roma, ele sabia que enfrentaria o espectro da morte, mas não se deixou esmorecer pela certeza íntima de algo superior na eternidade.

DEIVY FERREIRA PANIAGO JUNIOR
20/12/2021

Fontes:

CABRAL, Elienai. Apóstolo Paulo – Lições da vida e ministério do apóstolo dos gentios para a Igreja de Cristo. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.

ARRINGTON French L; STRONSTAD Roger. Comentário Bíblico Pentecostal – Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico – Atos a Apocalipse. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.